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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

Alexandre C. Moraes

@365haicais · 53 microcontos nos campeonatos 12º, 11º e 9º.

12º campeonato 14

12º campeonato · Nacional

NATURALIZAÇÃO

O disco caiu no quintal de Naldo. Ele ergueu o estranho do chão. O visitante decorou o gesto, a língua, até a pinta no queixo. Ao amanhecer, os dois exibiam o mesmo rosto. Naldo procurou a identidade. O outro já a segurava. Quando o disco partiu, um deles ficou brasileiro.

12º campeonato · Morte

Valdir morreu às oito, no portão de casa, a golpes de enxada do próprio filho. Antes, chegou sorrindo com um oficial de justiça e um chaveiro. Antes, guardou no bolso um envelope pardo. Antes, no cartório, vendera a casa da mãe. Antes, ela ainda respirava.

12º campeonato · Calo

CONTROLE DE QUALIDADE

Após 10 anos apertando o mesmo parafuso, o robô criou um calo. A fábrica o desmontou. Na esteira, as outras máquinas esconderam as mãos.

12º campeonato · Chupeta

AVISO-PRÉVIO

Antes de cada demissão, o diretor se trancava no banheiro e levava a chupeta à boca até recuperar a frieza. Ao dispensar a secretária, a chupeta escapuliu do bolso e caiu aos pés dela. Ela a limpou na manga e devolveu:
— O senhor ainda vai precisar.

12º campeonato · Bandeja

CHOCADA

A menina ouviu um pio numa bandeja de ovos. Sem a mãe perceber, acomodou-a no carrinho e cobriu com alface. Três semanas depois, voltou ao supermercado com um pintinho numa mão e a nota fiscal na outra: — Faltaram onze!

12º campeonato · Aurora

CLARIVIDÊNCIA

Às 5h29, o deserto não esperou a aurora: amanheceu do chão. Os cientistas protegeram os olhos e aplaudiram. Vinte e um dias depois, em Hiroshima, outro sol nasceu às 8h15. Ninguém teve tempo de olhar o céu.

12º campeonato · Proparoxítona

RETÓRICA

Na campanha, cada eleitor era único. O candidato, próximo. O futuro, magnífico. Na posse, os únicos viraram público. O próximo virou Excelentíssimo. O magnífico virou pretérito.

12º campeonato · Ilha

NÁUFRAGOS

Por séculos, a ilha deu chão aos condenados, doentes e dissidentes do continente. Uma madrugada, ela se arrancou do fundo e nadou até o porto. Pediram passaporte. Antes de rebocá-la de volta, embarcaram os deportados da semana.

12º campeonato · Nervo

PARALISAÇÃO

O cérebro me confiou a ordem de flexionar o indicador pousado no gatilho. Não a entreguei. Mandou outra. Também não. O simpático encharcou a palma. O óptico avisou: o indicador do outro se movia. O auditivo trouxe o estampido. Depois, nenhum de nós recebeu nova ordem.

12º campeonato · Entrega

VIOLAÇÃO

Vivíamos grudados. Ele dizia que eu vigiava seus passos, roubava sua liberdade. Até que uma madrugada, me levou pro matagal. A lâmina acabou com a nossa ligação. Antes de apagar, entreguei ele. Quando as sirenes chegaram, o tornozelo já estava livre. Ele não.

12º campeonato · Cãibra

TOQUE FINAL

Deus já dera vida a Adão. Faltava o juízo. Estendeu o dedo para concluir a obra, mas uma cãibra interrompeu o toque. Michelangelo pintou aquela distância. Os teólogos a batizaram de livre-arbítrio.

12º campeonato · Lago

HORAS EXTRAS

Toda madrugada, a Vila Amaury emerge do Lago Paranoá. Cobertos de lodo, os candangos abrem Brasília a marretadas. Às oito, a vila afunda e o Palácio do Planalto acorda com uma porta que não estava na planta.

12º campeonato · Virgem

MÃE SOLO

O dono da construtora visitou a mata virgem. Meses depois, a floresta pariu um condomínio fechado. Na portaria, uma árvore virou logotipo. Últimas unidades!

12º campeonato · Cesto

APROVEITAMENTO

Passou a noite escrevendo, amassando e arremessando rascunhos no cesto. Às 23h59, o placar marcava treze acertos em quinze lances livres. Inscreveu um dos dois erros.

11º campeonato 33

11º campeonato · Diálogo

DIÁLOGO DE SURDOS

Ele batia no peito quando queria dizer eu. Ela apontava pro céu quando queria dizer fé. Nunca foram à escola. Inventaram uma língua inteira, só deles. Quando ele morreu, ela ficou sem vocabulário.

11º campeonato · Diálogo

S.Ó.S

— A gente precisa de diálogo.
— Só…
— Você nunca responde.
— Só…
— Tá vendo?
— Só…
— Ok. Vou embora. Levo só os dois gatos.
— “Só os dois gatos?”
— Só.

11º campeonato · Diálogo

PRONUNCIAMENTO

O ministro disse que o país vivia um momento de esperança. O tradutor traduziu. O ministro disse que os mais pobres seriam os primeiros a se beneficiar. O tradutor traduziu. O ministro disse que ninguém mais sofreria. O tradutor desligou o microfone. Ficou em silêncio. Não traduziu.

11º campeonato · Fotografia

RECORDAÇÃO

Nos álbuns, ele aparece só como sombra no chão: comprida nas de verão, curta nas de inverno. A família achou singular. O psicanalista achou antes.

11º campeonato · Fotografia

MARCHANT

Expunha fotografias. Não se deixava fotografar. O advogado chamou de timidez.

11º campeonato · Fotografia

(DES)APARECIDA

Procurou uma foto em que ela não sorrisse. Vasculhou mais de quatrocentas. Não foi encontrada.

11º campeonato · Bolso

QUE DROGA!
O policial colocou a embalagem no bolso dele. O delegado mandou ler e assinar. Ele mostrou o polegar direito.

11º campeonato · Bolso

TROMBADINHA

Pegou um chiclete. Meteu no bolso. Pegou um chocolate. Meteu no bolso. Trombou com o segurança. Meteu o pé.

11º campeonato · Bolso

NA PELE

Na praia naturista, olharam torto pro alfaiate. Era o único com bolso.

11º campeonato · Banda

EREMITO

Cansou das fake news, do grupo de zap, da bolha. Debandou. Nas montanhas, postou o pôr do sol com salmo nos stories.

11º campeonato · Banda

MIL TOM

Tocaram a música favorita dele. Ele não reconheceu.

11º campeonato · Banda

BATISMO DE SANGUE

Quando conheceu a banda, o chefe perguntou se estava dentro. Ele disse que sim. O chefe perguntou se tinha certeza. Ele disse que sim. O chefe não perguntou mais nada.

11º campeonato · Ficção

A HORA DO RASCUNHO

Vou falar de um homem que não me pediu nada. Ele acorda às cinco. Come o que tem. Dorme. Está esperando a vida começar. O roteiro não prevê virada para ele. Ele não sabe. Não tem cartomante. Continua. Sonha que é estrela. Sim.

11º campeonato · Ficção

GÊNERO

A mãe ainda chamava pelo nome antigo. Insistia no personagem. A filha partiu.

11º campeonato · Ficção

AGENTE SECRETO

Infiltrou-se no envelope.

11º campeonato · Cobre

DÍZIMO

Mateus cobrava em nome de Herodes. Chamado, trocou de Senhor. Séculos depois, a benção vem com chave Pix.

11º campeonato · Cobre

COBRADO

O Sr. Cobre esquentava antes dos outros. Esfriava por último. No inventário: trocado por alumínio.

11º campeonato · Cobre

ISENTO

Mandaram Gerson cobrir o escândalo na Prefeitura. Entregou uma página em branco. O editor elogiou o texto limpo. Publicou. O IPTU sumiu.

11º campeonato · Melancia

DIETA

Pesou a melancia. Pesou a culpa. Comeu as duas.

11º campeonato · Melancia

TRANSPLANTE

Coração novo, disseram.
Ela olhou pro tamanho da cicatriz.
- Acharam na feira?

11º campeonato · Melancia

PESADO

O agente da alfândega parou a melancia. Mediu, fotografou, carimbou. Quando ia pesar, a fila reclamou. Passou na frente a mala diplomática.

11º campeonato · Ano

ANO PASSADO

A criança ouviu a mãe dizer que o avô ficou no ano passado. Vestiu o casaco e foi atrás. Na praça, achou o banco onde ele sentava. Abriu o caderno e escreveu: “Vô, tô aqui”. O vento virou a página.

11º campeonato · Ano

SABÁTICO

Acordou às nove pela primeira vez em onze anos. Sem cartão de ponto. Sem meta. Sem rota. A vizinha perguntou se estava de férias. Ele disse que sim. Enfiou o aviso de despejo na gaveta.

11º campeonato · Ano

DOIS OVOS

Durante cinquenta e três anos cozinhou dois ovos toda manhã.
Um ela comia. O outro esfriava.
Ninguém nunca perguntou por quê. Ela nunca explicou. Esta manhã não acordou para tirar o ovo da água.

11º campeonato · Toa

FOLGA

— Lá em casa, quem descansa é ela.
O leite marcou a blusa antes da resposta.

11º campeonato · Toa

NIGHT

Ele dizia que ela ficava à toa. Às três, o bebê chorou. Ela não acordou: dormia sentada, com ele no colo.

11º campeonato · Toa

DERIVA

Assinou a separação. Sempre chamou ela de corda. Quando a porta fechou, o chão virou mar. Ele não sabia nadar.

11º campeonato · Umbigo

5ª SÉRIE

Apelidaram ele de Coto. Cresceu, virou pai. No parto, pediu ao médico: “capricha no corte”.

11º campeonato · Umbigo

MANIPURA

Era obcecado por umbigos. Dizia que o terceiro chakra era onde o ego ainda era honesto. Cobrou 500 reais para avaliar o dela.

11º campeonato · Umbigo

VOVÓ GAROTA

Aos 73, deixou a neta furar o umbigo. A aliança virou piercing de caveira. Agora só falta convidar o Sr. Nilson, do 102, para a sauna.

11º campeonato · Moeda

TROCADO

Depois de beijar, devolveu as trinta moedas de prata. Não havia troco.

11º campeonato · Moeda

COBRADOR

Depois de uma vida contando moedas, pulou a catraca eletrônica e falou com o motorista somente o indispensável: adeus.

11º campeonato · Moeda

VINTE CENTAVOS

O gigante acordou. Foi às ruas. Quebrou tudo. Quando voltou pra casa, outro estava sentado na cadeira. Pagaram barato.

9º campeonato 6

9º campeonato · Cobertor

GUERRA FRIA

Toda noite, ele puxava. Até que, numa manhã, ela vingou: levou o cobertor, os sonhos e o gato. Deixou a cama pra ele. Fria.

9º campeonato · Confusão

CNOFUSOÃ

Praece cofnsuo, msa sue céerbor cosnegue lre as palvaras inevrtiads nuam boa. Tá vnedo?

9º campeonato · Olhos

NOSSOS SENTIMENTOS

Ela fechou os olhos. E sentiu. Muito.

9º campeonato · Vaso

VASO OU… VAZO?
Quebro. Entupo. Furo. Transbordo. Às vezes, vazio. Florido. Pintado. Cru. Sanitário. Sanguíneo. Sagrado. Frágil… De cerâmica. De vidro. De barro. Sou muitos. Esvazio. Escapo. Gotejo. Revelo. Vazo. Visto S ou Z. Depende da ocasião.

9º campeonato · Mentira

SÃO SEUS OLHOS

— Querida, eu te amo! Te amo… te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo. Te amo… te amo mil vezes!
— Amado, seus olhos falam outra coisa. Mil vezes.

9º campeonato · Estudo

{sEnHOr aLuNO

AprendeU a LEr cOm quareNTa. CanETa noVa. MãO trêMuLa. Na eScoLa, forMAdo no EJA. Na viDa, póS-gRAduado em soBReVivênCiA. E PHD em coiSAs que dipLoma nenHum haBilita. rEpRoVado pELa $OcieDadE.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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