12º campeonato · Nacional
Biblioteca Nacional
Mais linda que o livro são os olhos dela, atentamente sorridentes por trás da capa.
Campeonatos de microcontos · Autores
@acasodre · 52 microcontos nos campeonatos 12º, 11º e 9º.
12º campeonato · Nacional
Mais linda que o livro são os olhos dela, atentamente sorridentes por trás da capa.
12º campeonato · Morte
Morte em Veneza é o que ela lê do outro lado da mesa. Entre quietas fileiras de livros. Sob o severo olhar da bibliotecária. Imagino nosso futuro. “Até que a morte os separe.” Estes devaneios românticos são sandices, tolices, bobagens.
Tenho uma tarefa muito mais importante.
Dizer oi.
12º campeonato · Calo
Ponho-me a pensar em como chegar nela, que devora seu livro cada vez mais perto de mim. Posso elogiar o calo que ela tem no pé esquerdo, que sua sandália exibe sem pudor. Posso até mentir: um também tenho! Algo em comum, só para começar uma prosa.
Mas calo bonito nunca vi. Por isso, me calo.
12º campeonato · Chupeta
[fora do prazo] Ando arrependido de não ter me apresentado àquela mulher. “Perdi a chance!” De repente, a vejo frustrada no carro. “Precisa de ajuda?” Sem bateria. “Você precisa de uma chupeta.” Ele revira os olhos. “Não. Uma recarga. Chama o seguro.” Encostados no carro, tomamos sorvete esperando a ajuda chegar.
12º campeonato · Bandeja
Frequentamos a mesma faculdade. “Quer sair comigo?”. Não, muito cedo. Nos encontramos no bandejão. Ela, literatura. Eu, engenharia. Entre ávidos alunos famintos, debruçados em livros e celulares, trocamos olhares e histórias de vida, e rimos de professores esquisitos. Estamos felizes.
12º campeonato · Aurora
Nossa primeira viagem. “Vá para o norte”, ela diz. Eu dirijo, dirijo e dirijo.
“Estamos chegando?”
“Não, mais ao norte!”
Passam-se horas, dias, meses. Chegamos a um canto do mundo:
“Pare, é aqui.”
Deitamos na grama, ela segura minha mão sob uma Aurora Boreal.
Nunca vi coisa mais linda.
12º campeonato · Proparoxítona
Ela chegou como se fosse mágica,
Ele sorriu como se fosse pândego,
Ela viveu como se fosse lúdico,
Ele sofreu como se fosse trágico,
Ela partiu como se fosse épico,
Ele chorou como se fosse música.
12º campeonato · Ilha
Fujo para uma ilha deserta. Desconsiderando a mais básica das perguntas, não levo nada, apenas solidão. Sento-me na areia branca, olhando para o mar azul turquesa. No último instante do pôr-do-sol, ela sai das águas mornas em minha direção. Levanto-me agitado.
Já é noite e não há ninguém.
12º campeonato · Nervo
“Bastou ela te deixar e você com os nervos à flor da pele.”
“É que eu deixei umas coisas na casa dela.” Meus dedos martelando na coxa.
“E esse calhamaço de livros entreabertos jogados na mesa?”
“Neuroengenharia. Quero apagá-la da minha memória.”
“Por quê?”
“Não me interessam as lições da dor.”
12º campeonato · Entrega
Pacote entregue.
Sobras de nós, cheiro dos lençóis.
O adeus veio antes do fim da esperança.
Minha entrega frente à sua, fiel da balança.
A aliança desamparada ginga em seu dedo.
A sensação de estar sempre um passo mais cedo.
É meu, o disco do Pixinguinha, é sim, meu.
O resto é teu.
12º campeonato · Cãibra
Evito a ex a todo custo. Fujo dos nossos lugares: a Biblioteca, a sorveteria, a aurora boreal. Mas o acaso é cruel. Oi seco, desajeitado. Ele chegou e a beijou. As cãibras começam. Só penso em disfarçar.
Vivo meu pior pesadelo. Respiro fundo e os espasmos arrefecem. Hora de seguir em frente, talvez.
12º campeonato · Lago
Sento-me à beira do lago. Garoa. Ondas colidem com outras ondas, devolvendo uma memória nossa. Um sorriso, um beijo, sua pele, brigas sem fim, ela saindo para nunca mais voltar.
Ela se senta ao meu lado. Olhares entrelaçados. “Muito prazer”. Ainda não sei, mas seremos grandes amigos.
12º campeonato · Virgem
“Escreva. Escreva por você, escreva por ela, escreva pelos bons momentos, escreva sobre a dor da separação. Escreva.”
“Pra quê? Serei lido?”
“Não, ninguém. Você faz a pergunta errada.”
Olho para a tela. Cursor parado, piscando e piscando. Na alvorada, uma palavra.
Agora, entendo.
12º campeonato · Cesto
Peço, com as mãos enrugadas, meu cesto de memórias: a ambição da juventude, o conforto da meia-idade, o cansaço da velhice.
Por fim, uma imagem. Nós, jovens. Ela segura minha mão. Na outra, um cesto vazio de roupas. Olhamos a secadora, as roupas girando e girando. “Tudo ficará bem,” ela diz.
Espero que ela tenha sido feliz.
11º campeonato · Diálogo
Passo boa parte do tempo em silêncio, ouvindo músicas no celular e me atualizando sobre política e futebol. Às vezes alguém chama no portão: “É o senhor fulano, para a senhora beltrana do 73”. Devia mudar meu nome para Boa Noite, já que é assim que todos me chamam.
11º campeonato · Diálogo
O próprio diálogo desistiu quando teve que argumentar que a terra era plana.
11º campeonato · Diálogo
E o pedido chegou no celular do motociclista de aplicativo.
11º campeonato · Fotografia
— “Nossa, vocês ficaram incríveis nessa selfie. Onde foi que tirou?”
Uma longa pausa.
— “Não faço ideia.”
11º campeonato · Fotografia
Enquanto organizava as coisas da mãe, que partira aos noventa anos, encontrou uma caixa de fotos. Nelas, ela aparecia com outra família, sempre feliz. Ao lembrar do pai que teve, não conseguiu evitar um sorriso.
11º campeonato · Fotografia
Revelou a árvore imponente, de beleza intratável, que ainda resistia bravamente à areia que se aproximava por todos os lados.
11º campeonato · Bolso
Ela vasculhava o armário do pai, em busca de trajes para o funeral. Entre tecidos gastos, encontrou seu paletó preferido. No bolso repousava uma carta de amor, amarelada, enrugada e jamais enviada. No canto da sala do velório, uma mulher desconhecida chorava.
11º campeonato · Bolso
Ele desperta já calculando os passos. O bolso raso é sua barra de equilíbrio, e cada troco economizado uma acrobacia bem executada. A sobrevivência é espetáculo sem plateia. O aplauso mudo é alívio: atravessar mais um dia. Todo o mês, o ato recomeça.
11º campeonato · Bolso
Todos invejam o amor que exibem. Sorrisos, mãos dadas, beijos calorosos. Um espetáculo impecável. Mas cada um guarda no bolso o mesmo segredo: não suportar mais encarar o rosto do outro.
11º campeonato · Banda
O homem sério que contava dinheiro parou.
Trabalhadores essenciais não pararam o labor.
Gente sofrida nunca se despede da dor.
Não viram a banda passar, cantando coisas de amor.
11º campeonato · Banda
Caminhava de banda a banda sem parar. No vaivém da procura, juntava os cascos de si que, num dia sem aviso, ela espalhara por aí.
11º campeonato · Banda
Trabalhava em uma ilha remota, saltando de banda de frequência em banda de frequência no rádio. Ouvia a humanidade falar e fazia anotações. Certo dia, sem aviso, tudo parou. Apenas estática. Foi descansar.
11º campeonato · Ficção
A Incrível Ficção da Aposentadoria
O RH fez uma festa de despedida. Teve de tudo, bolo e brigadeiro. João bateu o ponto pela última vez e guardou sua marmita, sentindo o peso dos passos no piso de ferro. Na face, a fadiga. Seu descanso agora é o volante em punho e o peso de passageiros apressados.
11º campeonato · Ficção
Mais realidade que a ficção
O algoritmo previu o café frio e a promoção às dez. Antes de Ana sentir sede, o drone entregou a água. Ao meio-dia, o app comprou o anel de noivado que Pedro ainda não sabia que queria dar. Às onze, recebeu uma mensagem com desconto em coroas de flores. Dois minutos depois, o hospital ligou.
11º campeonato · Ficção
Helena sentiu o rosto travar em um brilho azul. No espelho, seu sofrimento era binário. As lágrimas escorriam em código. O sistema ignorava seu grito desesperado. "Arquivo corrompido, deletar?"
11º campeonato · Cobre
Ao lado da roleta, o sol ardente marca seu braço. Os ônibus no terminal cobrem o asfalto de fumaça, enquanto ele finge não notar a molecada passando por baixo da catraca.
11º campeonato · Cobre
Na escuridão da mina, o brilho metálico rasga a pedra bruta. O suor cobre o rosto do mineiro. Cada marretada rompe o silêncio com o som do lucro alheio e levanta o pó que se deposita no peito, endurecendo a respiração, tornando-a pesada como o minério.
11º campeonato · Cobre
— Me cobre o aluguel amanhã! — implora o pai. O dono do cortiço esmurra a porta: — Meu dinheiro agora, ou rua!
No canto, a mãe cobre o filho que chora sob a manta gasta.
11º campeonato · Melancia
A lâmina brilhava sob a luz da cozinha O braço ergueu-se, firme, e pairou no ar por um instante que pareceu eterno. A faca desceu. Violência contida, precisão mortal. Não houve grito. O verde se abriu, revelando o vermelho vivo da polpa da melancia. Era o começo da partilha.
11º campeonato · Melancia
Era uma vez um homem esfarrapado, numa pobre vila, que carregava uma melancia pendurada no pescoço. O povo chamava-o de louco. Um dia, os deuses mandaram um tornado. A melancia se partiu, espalhando as sementes pretas pelos campos. O fardo virou abundância. O riso, gratidão.
11º campeonato · Melancia
Depois da feira, meninos e meninas corriam entre caixas e bancas, catando frutas esquecidas: maçãs mordidas, bananas amassadas, uvas soltas. Quando encontraram a melancia intacta, enorme e reluzente, encheram-se de felicidade. Acharam um tesouro vermelho escondido no verde.
11º campeonato · Ano
Não foi nada engraçado
te ver com um novo amor.
11º campeonato · Ano
Em 13 de dezembro, o governo militar de Costa e Silva promulgou o AI-5. O ato permitiu cassar mandatos, suspender direitos políticos, fechar o Congresso e decretar estado de sítio. No porão do DOPS, dois homens empoderados entravam na sala escura onde uma jovem estava amarrada na cadeira.
11º campeonato · Ano
No dia 15 de março, José Sarney tomou posse como presidente após a eleição indireta. Com o juramento no Congresso, encerraram-se oficialmente os 21 anos da ditadura militar no Brasil. Uma senhora, que teve a filha em um porão sujo do DOPS, chorava.
11º campeonato · Toa
Ela ignorou os avisos no píer. O barco segue à toa. Na proa, ela encara a névoa. Pegadas molhadas surgem no convés. Um ser de pele de algas e sal, cheiro de peixes mortos e olhos sem brilho se aproxima. Ela sente sua respiração fria na nuca, e o silêncio pesa mais que o mar.
11º campeonato · Toa
O velho estava à toa na vida, quando a revolução lhe chamou. Tambores rufaram, bandeiras tremulavam. A massa seguiu rumo à mansão do doutor, com clamor de libertação. Ele apenas sorriu, deitado na rede, embalado pela ventania que se formava com sede.
11º campeonato · Toa
Barco pequeno, motor que engasga, casco que range sob o peso de bilhões. O leme, duro, responde com atraso. Avança contra a própria impossibilidade. Toa o iate colossal, onde poucos brindam com champagne e comem caviar.
11º campeonato · Umbigo
(O estranho caso da multiplicação) Nasceu com umbigo, deppis surgiu o segundo, depois o terceiro, depois o quarto...Não sobrava tempo senão para cuidar dos próprios umbigos.
11º campeonato · Umbigo
(Umbigo do mundo) Caiu junto com a riqueza.
11º campeonato · Umbigo
(Origem) A flor de Narciso floresceu do umbig o do corpo a beira do lago.
11 MOEDA
heltPAGINA 70
11º campeonato · Moeda
O homem de muleta se aproxima do carro. O motorista balança a cabeça e murmura “Não tenho…”. Tem sim, só não quer pensar sobre a situação.
11º campeonato · Moeda
Por anos, pensou, planejou e arquitetou cada detalhe. Enfim, pagou com a mesma moeda. Vingado, viu-se vazio, vivendo a mesma miséria.
11º campeonato · Moeda
Era uma vez um homem apaixonado. Um dia, ganhou o grande prêmio. Foi à agência bancária e exigiu os seus milhões em moedas de centavos.
Ao lado da funcionária foi feliz, entre o brilho frio do metal e o compasso lento da contagem.
9º campeonato · Cobertor
Quando criança tinha um cobertor felpudo. O calor que sentia quando mergulhava seu pequeno corpo por completo debaixo dele nas noites de frio era uma memória distante. Hoje, só a luz amarela dos postes públicos e os pedaços de papelão que servirão de cama na calçada fria e cinza.
9º campeonato · Confusão
Abriu a porta de madeira e sentou-se agitado. Com o coração pesado, pôs tudo para fora. Traía a mulher, não era um bom pai, andava bebendo muito. Arrependido, clamou pelo sacramento da penitência.
Sentado na privada do banheiro do bar, não ouviu resposta.
9º campeonato · Olhos
De olhos vendados, via o sol se pôr no oceano. Sentia a água salgada tocar e fugir dos seus pés fincados na areia. Respirou fundo. Caminhava em direção à luz.
9º campeonato · Vaso
Enquanto o atendente fez uma pausa para ir ao banheiro, a molecada do bairro começou uma pelada na rua em frente a loja de vasos.
9º campeonato · Estudo
Sentou-se à carteira quebrada. Olhou para a lousa sem giz. Lembrou-se do banheiro interditado. Comeu a merenda como se fosse a última refeição do dia. Reconheceu o cansaço da professora. Leu nas paredes descascadas: “Aqui, estudar é um ato de resistência”.
Abriu o caderno e pegou o lápis.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.