5º campeonato · Ninguém
No nada
Ninguém mais do que eu se surpreendeu com o meu falecimento: jovem para os padrões vigentes, e saudável, deitei-me para dormir e não despertei. Na firma algumas pessoas se comoveram. Enquanto faziam-se os trâmites de estilo, busquei os óculos e a chave do carro, mas vi que era absurdo. Desabituado, eu agia como quem aperta o interruptor logo que a luz acaba.
5º campeonato · Vazio
Pela primeira vez um ser humano atravessava o cinturão de asteroides e pousava numa das luas de Galileu. Seu coração, inicialmente agitado em excesso, começava a se acalmar. Olhando o vazio em volta, o céu sulfuroso, o planalto despido, ela sentiu saudade... de tudo: do verde, do zum de besouro, da voz humana: “magnífica desolação”, pensou consigo.
5º campeonato · Estrela
O salto
Pulava, cantava, e desta vez parecia convencido: a estrela solitária ergueria a taça triunfal. A cada lance, cada drible, vibrava sentindo a glória se avizinhar: "Gool!" - gritava, febril. Mas no fundo, no fundo, palpitava, silente, a dúvida que sempre o perseguira: será que temos time para isso?
5º campeonato · Pétala
Quantos minicontos serão publicados na página como os melhores da semana?
5º campeonato · Pétala
Banho tépido
Bem-me-quer? "Não" seria a resposta mais confortável. Decerto, ser ignorada a entristecia, minava-lhe a autoestima. Mas ser desejada, querida - essa ocorrência bissexta - fazia com que se sentisse lançada num labirinto intransponível.
Torcia, portanto, para que a última pétala lhe apontasse, como um lenitivo, uma vida plácida e medíocre.
5º campeonato · Corpo
Valdemar
Não é ruim como parece, disseram, você logo se acostuma. Comecei receoso, mas logo estava mesmo habituado. Já não sentia o odor característico que diziam ser ingrato e persistente, e o silêncio do público me convinha. Nas horas vagas, eu lia.
Mas nada havia me preparado para ver um braço frio escapar de um lençol e exibir, desafiante, o punho cerrado.