11º campeonato · Diálogo
Ele escreveu “diálogo” e, distraído, leu “dia, logo”. Achou curioso: sempre marcavam para depois, para breve, para um dia qualquer.
Nunca era agora.
Entre o dia e o logo, o tempo passou. E o diálogo, que parecia tão próximo, ficou distante.
11º campeonato · Diálogo
Falavam o dia inteiro nas telas. Mensagens, áudios, respostas instantâneas.
À noite, o quarto era mudo.
Tanto diálogo.
E nenhuma voz.
11º campeonato · Diálogo
Parou diante do espelho e iniciou o diálogo com o homem que sonhou ser.
Esperou palavras, um conselho, qualquer sinal.
Nada veio.
A resposta escorreu silenciosa pelo rosto —
uma lágrima.
11º campeonato · Fotografia
Ele achou a fotografia antiga na gaveta. Já fora viva, cheia de cores. Agora estava pálida, quase sem rosto. Sentou-se e percebeu que o desbotado não era só do papel. O jovem da imagem também se apagara nele. Restava a silhueta — lembrança de que um dia tudo foi intenso.
11º campeonato · Fotografia
Ela era vaidosa. Cada foto trazia um retoque, um ajuste discreto, um novo detalhe. As versões se acumulavam, sempre mais perfeitas.
Um dia abriu o álbum e não se reconheceu. Entre filtros e mudanças, perdeu o próprio rosto — e ficou só a imagem.
11º campeonato · Fotografia
Ele guardava o rolo antigo numa caixa de sapatos. Dizia que ainda revelaria. Nunca revelou.
Ali havia uma imagem que ninguém viu — talvez um amor, talvez um erro.
Temia que, ao abrir, descobrisse que a fotografia não era tão bela. Ou pior: que fosse exatamente como lembrava.
11º campeonato · Bolso
Ele guardava cartas no bolso do casaco, dobradas demais para não doer. Gostava de sentir o papel contra a mão.
Em casa, o bolso estava vazio.
O forro, rasgado.
Não foi o vento.
Era nele que havia um rasgo —
e nada ficava.
11º campeonato · Bolso
Ele guarda as mãos no bolso durante o velório.
Não abraça ninguém.
Não chora.
Dizem que é força.
Mas o único abraço que queria dar
está no caixão.
E as mãos ficam onde sempre estiveram —
tarde demais.
11º campeonato · Bolso
Ele percebeu tarde: o bolso não guardava — mastigava.
Primeiro sumiram as moedas.
Depois as chaves.
Depois o nome nos documentos.
Uma noite, o tecido respirou contra a barriga.
Levou a mão — encontrou dentes.
De manhã, o casaco pendia no armário.
Havia uma mancha escura na costura.
No bolso, silêncio.
Ele não.
11º campeonato · Banda
O bumbo marca o chão como um coração insistente. Os metais sobem, quase gritam, misturam-se às vozes da rua. Um apito corta o ar e organiza o passo.
A banda segue.
Assim passa a vida: pulsando por dentro, falando alto por fora, até que o último sopro dobra a esquina — e o ritmo fica só na lembrança.
11º campeonato · Banda
Coloca o LP da banda para girar. A guitarra o leva ao show — luzes, suor, ela ao seu lado, jurando que o refrão seria eterno.
Lado A: sonhos cantados juntos.
Ele vira o disco.
Lado B: a música segue, ela não.
Desliga. O amor acabou antes da última faixa.
11º campeonato · Banda
Chamaram-no de banda podre.
Como se fosse a parte estragada do próprio sangue. À mesa, os olhares o cortavam antes das palavras.
Percebeu, em silêncio: não era metade ruim.
Era o lado que ninguém quis amar.
11º campeonato · Ficção
De dia, ele aceitava tudo.
À noite, na ficção, enfrentava o mundo.
Ali gritava o que aqui engolia.
Ali era inteiro.
Tentou unir as duas vidas.
Escreveu seu nome no personagem.
Chamaram no trabalho.
Ele respondeu —
e um deles morreu.
11º campeonato · Ficção
Olho a ficção.
Ela me escreve.
Desvio —
é ela que me lê.
No fim,
não sei se invento
ou sou inventado.
11º campeonato · Ficção
Ela chamava de amor.
Ele, de hábito.
Criou uma ficção onde era amada.
Quando ele partiu, nada ruiu.
Na ficção, personagens sobrevivem.
Na vida, alguns não.
11º campeonato · Cobre
A mãe a cobre todas as noites.
Cobre o corpo miúdo com o lençol.
Cobre de beijos a testa.
Cobre de abraços o medo.
O tempo descobre a cama vazia.
Anos depois, é ela quem cobre a própria filha.
Cobre de lençol.
Cobre de beijos.
Cobre de abraços.
E, ao cobrir a menina,
sente as mãos que já não existem
cobrindo as suas.
11º campeonato · Cobre
Ela descobriu a verdade
e começou a arrancar a própria pele.
Não gritou.
Só puxou — camada por camada.
Queria ver o que existia sem mentira,
sem nome,
sem cobertura.
Quando terminou, tentou se vestir outra vez.
Mas não era mais roupa que faltava.
Era pele.
11º campeonato · Cobre
Ele a ergueu como bezerro de cobre
e chamou aquilo de amor.
Fez um altar na sala.
Passava as noites polindo o que não respirava.
Quando a beijou, cortou os lábios.
O gosto era metal.
Ainda assim voltou a ajoelhar —
sangrando,
e pedindo que ela sentisse.
11º campeonato · Melancia
Ele plantou uma melancia no quintal
porque queria algo doce.
Enterrou a semente com as próprias mãos.
Regou. Esperou.
Quando brotou, não era verde.
Era arame.
Cresceu rente ao chão,
subindo pelas pernas.
Agora o quintal está fechado.
E ele aprende, tarde demais,
que foi adubo.
11º campeonato · Melancia
Melancia aberta na mesa vazia.
Fome rói ossos — o vermelho apodrece.
11º campeonato · Melancia
Ele crava a faca na melancia.
O estalo o acalma.
O vermelho se abre fácil demais.
Fecha os olhos.
Queria resistência.
Mais fundo.
O suco escorre pelos dedos.
Ele sorri.
É só melancia —
por enquanto.
11º campeonato · Ano
Convite do primeiro ano de Ana, escrito à mão, guardado na gaveta.
Nunca foi entregue.
11º campeonato · Ano
Chamaram de ano.
Era só medo numerado.
No último corte,
não era o tempo que passava —
Só as marcas ficaram.
11º campeonato · Ano
Cem anos na mesma varanda.
Cem nomes repetidos à mesa.
Chamaram de amor o que apenas distraía a solidão.
Choveram flores amarelas.
Cartas nunca chegaram.
Quando os cem anos passaram,
a cadeira criou raízes.
No ano seguinte, era árvore.
E a solidão pendia —
madura.
11º campeonato · Toa
Estava à toa, esperando o amor chamar
pra ver a banda passar.
A banda passou.
Esperou tanto
que virou músico.
Quando tocou,
o amor chamou.
E a banda era ele.
11º campeonato · Toa
Escolheu viver à toa.
A sombra o seguia.
Depois, passou a andar um passo atrás.
Ele falava, ela afinava.
Ele corria, ela atrasava.
Um dia, parou.
Virou-se para ver se ainda era dois.
Era só luz.
11º campeonato · Toa
Caminhando, arrancava-se.
A cada dor, deixava um pedaço à toa na estrada.
Dedos nas despedidas, língua nas mentiras,
o peito nas promessas mortas.
Seguiu leve. Quase ninguém.
Um dia, algo exigiu corpo.
Voltou.
Os pedaços já tinham outra forma.
Costurou-se mesmo assim.
E ainda procura o que o deixou.
11º campeonato · Umbigo
Às vezes, ela toca o umbigo sem saber.
Ali cortaram o cordão para que respirasse sozinha. Chorou ao nascer; havia braços.
Anos depois, quando a mãe partiu, sentiu outro corte — no mesmo ponto, por dentro.
Desde então, o vazio pulsa ali.
É ali que ainda busca seus braços.
11º campeonato · Umbigo
Nunca ligou para o umbigo.
No espelho, tocou a marca esquecida.
Achava que suas cicatrizes eram as da vida.
Então entendeu:
o primeiro corte não o feriu —
foi quando o tiraram do único lugar
onde jamais estaria sozinho.
11º campeonato · Umbigo
Umbigo: nó desfeito.
Depois dele, amar é aceitar o próximo corte.
11º campeonato · Moeda
Ele sempre viveu no cara ou coroa, lançando a moeda como quem desafia o destino. Apostou amores, empregos, amizades.
Um dia encontrou a Morte.
— Última jogada — disse ela, erguendo a moeda.
Girou no ar, lenta.
Caiu.
Não havia dois lados. Só o dela.
11º campeonato · Moeda
Contou moedas a vida inteira, convencido de que tudo tinha preço.
Na morte, puseram-lhe um óbolo na boca. Caronte o levou pelo Aqueronte, rumo ao Lete, onde a memória se desfaz.
No barco, apertou a moeda.
Entendeu tarde: só atravessa o que não se compra.
11º campeonato · Moeda
Brincávamos de passa-moeda na calçada. Mãos fechadas, olhos atentos, risos contidos. Eu fingia não sentir o frio do metal quando parava na minha palma.
— Com quem está? — perguntavam.
Eu sorria e deixava o segredo seguir.
Hoje sei: a infância foi a única riqueza que não aprendi a guardar.