11º campeonato · Diálogo
QUASE
— A gente ainda é nós?
Ela demorou.
— Somos lembrança.
11º campeonato · Diálogo
— A gente ainda é nós?
Ela demorou.
— Somos lembrança.
11º campeonato · Diálogo
O diálogo existiu.
Foi breve.
Prometeram futuro.
Cumpriram ausência.
O amor começou no presente e terminou conjugado no passado.
A dor permaneceu no imperfeito.
11º campeonato · Fotografia
Rasguei a fotografia
em quatro partes iguais.
No verso, sua letra ainda dizia “te amo pra sempre”.
Não restou amor, não restou o “sempre”.
Doeu.
Seu sorriso enquadrado.
Eu, fora da cena.
11º campeonato · Fotografia
Embaixo da poeira, um quadro antigo ainda marcava suas iniciais.
Ela não se lembrava das pessoas na foto.
Passou o dedo pelo vidro, como quem tenta limpar a memória.
Apontou para a mulher sorrindo e perguntou quem era.
Disseram: você.
O último dia antes da doença.
11º campeonato · Banda
A banda passou, cantei meu amor.
E na folia, seu sorriso virou meu refrão.
11º campeonato · Banda
A banda ensaiava no quarto apertado, sonhos maiores que o mundo. Jurávamos que a vida cabia num acorde e prometíamos eternidade em vinil. O tempo entrou sem bater: trouxe boletos e silêncio. Crescemos. Deixamos os sonhos trancados no quarto, e a chave virou ferrugem no peito.
11º campeonato · Cobre
No fundo da gaveta, encontrei a moeda de cobre.
Não valia quase nada, diziam.
Mas foi com ela que comprei coragem
e paguei o preço de partir.
O troco veio em pedaços:
um amor partido,
oxidando devagar na memória.
11º campeonato · Cobre
Tentei cobrir teu nome
com lençóis,
com outros corpos,
com silêncio.
Mas o amor é cobre:
quando a gente encosta,
marca.
E mesmo coberto,
nunca deixa de doer.
11º campeonato · Melancia
A melancia se parte devagar, oferecendo a carne molhada. O suco escorre pelos dedos, mistura-se à saliva, pede boca. É água doce na língua, calor macio na pele. Bebe-se o fruto devagar, e no fim sobra esse gosto de você.
11º campeonato · Umbigo
No centro do corpo, um eclipse.
Umbigo:
vórtice inaugural
onde o mundo já foi corda.
Ali, o tempo respira rente à pele,
e o infinito cabe
na ponta do dedo.
11º campeonato · Umbigo
UMBIGO:
Entre a pele e o nada, um ponto me lembra de onde vim, cicatriz silenciosa, guarda o eco de um ventre que me perdeu. Testemunha muda, vestígio de algo que sempre fui.
11º campeonato · Moeda
Na feira da sociedade, troco silêncios por pão.
No escambo dos dias, a moeda é o tempo, gasto sem ver.
A realidade pesa no bolso furado,
mas é no rasgo que o mundo entra.
Penso: nada possuo,
sou possuído pelo que deixo florescer.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.