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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

Daniel Silos Moraes

@danielsilosmoraes · 40 microcontos nos campeonatos 12º, 11º e 9º.

12º campeonato 13

12º campeonato · Nacional

Sem graça

Quinze de maio de 1994. O menino ligou a TV, aguentou dez minutos, desligou. Foi para o quintal com o capacete amarelo de brinquedo, Nacional na testa, e ficou lá acelerando sozinho até escurecer.

12º campeonato · Morte

Trinácia

Euríloco jurou à mulher que não beberia mais. Resistiu um mês. No hospital, com a barriga inchada de líquido, esperou que ela saísse para tomar café, vestiu a calça e desceu. O sol brilhava. No bar da esquina, pediu a cachaça com um boi no rótulo. Partiu afogado.

12º campeonato · Calo

Marcas

João deu aula por quarenta anos. Vieram calos nas pregas vocais e o silêncio. Passou a escrever bilhetes para se fazer entender. A cirurgia não cabia na aposentadoria e a fila do SUS não andava. Encontrou um envelope por baixo da porta. Contou as notas. No papel, sem nomes: "Dos seus alunos."

12º campeonato · Chupeta

Utopia

Quando era muito pequenino, cuspia a chupeta; a mãe reclamava do trabalho que dava. Na meia-idade, pagava as próprias contas sem dever favores. Na velhice, dependia da filha até para abotoar a camisa. Voltou a dar trabalho. Faltava só a chupeta.

12º campeonato · Bandeja

Meritocracia

O funcionário era tão competente que expôs o despreparo do diretor. O chefe lavou as mãos; a ordem desceu de cima. A cabeça mais competente foi servida na bandeja do RH, ainda pensando.

12º campeonato · Proparoxítona

Em casa

A Gramática chegou lívida, com febre altíssima. Na maca gélida, sob a lâmpada de luz esdrúxula, sentia cada sílaba trôpega como pontada. A médica, apática, largou um livro e sumiu. No pânico, a Gramática se enfiou nas páginas. Na capa, Evanildo Bechara. Ali era impecável.

12º campeonato · Ilha

Cercado

Osmar postou uma foto da infância, nos anos 80, com a legenda: “Saudade de quando a gente se olhava.” Em uma hora, recebeu cento e quarenta curtidas. Entre os que curtiram, ninguém daquela época. Ninguém por perto. Desligou a tela. Só a geladeira respondeu.

12º campeonato · Nervo

Promoção

Fazia anos que Eliseu não comia carne vermelha. Achou um bife em promoção e pediu que Fernanda o preparasse. Ela reclamou do preço, do cheiro, dele. Ele mastigou, mastigou. Nervo puro. Não descia. Cuspiu no guardanapo. No domingo, devolveu o anel.

12º campeonato · Entrega

De plantão

Joãozinho montou guarda na soleira a noite inteira para flagrar a cegonha na entrega. Cochilou de madrugada, o queixo nos joelhos. O choro no quarto da mãe o acordou. Correu para dentro. A irmã caçula já estava lá, entregue. Ele passara a noite do lado errado.

12º campeonato · Cãibra

Fisgada

A pontada veio na panturrilha, na água gelada. Ele dobrou o corpo para esticar o músculo, as mãos procurando a perna... fecharam no vazio. O mar ao redor avermelhou. Antes de apagar, viu a barbatana se afastando, sem pressa.

12º campeonato · Lago

A Dama

Queria pescar, mas algo reluzia no fundo do lago. Debruçou-se, viu a espada cravada na pedra e mergulhou. Puxou até os pulmões arderem; a lâmina não cedeu. Ao emergir, o barco sumira. À sua frente, a dama o esperava sobre as águas. O lago começou a girar sem vento.

12º campeonato · Virgem

A primeira vez

Partiu tão novo que aquela travessia tinha nome de estreia: “maiden voyage". Prometia ser apenas a primeira de uma vida inteira de mares. Havia champanhe no convés e gelo à frente. Afundou sem conhecer a segunda.
O Titanic morreu ainda virgem.

12º campeonato · Cesto

Entre águas

A mãe selou o cesto com betume e o pôs na correnteza para que o rio decidisse o que ela não podia. O menino boiou entre os juncos, pequeno demais para saber que passaria a vida atravessando águas. Ninguém imaginaria que um dia elas se abririam diante de seu cajado.

11º campeonato 24

11º campeonato · Diálogo

Indialogável

— Oi, tudo bem?
—…
— Pode me ajudar? Preciso de uma informação.
—…
A moça de óculos escuros partiu enquanto o rapaz repetia sinais no ar sem sucesso.

11º campeonato · Bolso

NEGATIVADO

PIX? Raridade.
Carregava poucas notas.
Costurava bolsos em vão.
O furo era no cartão. Além do limite.

11º campeonato · Bolso

CERCADO

Rua escura, garoa fina, frio, névoa.
Suspeito cercado, mãos nos bolsos do casaco.
— Mãos na cabeça! — gritou um policial, arma apontada.
O homem tentou fitar os lábios do oficial, sem sucesso.
— Tire as mãos dos bolsos devagar... ambas na cabeça... vamos...
Ele as retirou rápido para gesticular.
BANG.

11º campeonato · Bolso

INVASÃO

Sequestradores invadiram a casa do empresário.
Móveis e roupas simples. Nenhum objeto de valor. Nenhum saldo.
Sobre a mesa, comprovantes: orfanatos, asilos, hospitais, animais resgatados.
Frustrados, nada levaram.
O empresário sorriu. Mãos e bolsos vazios. Seu banco ficava no céu.

11º campeonato · Banda

Escuridão veloz

Em terra de ex-leitor, quem tem banda larga é cego.

11º campeonato · Ficção

Herança

“Doam-se livros clássicos.”
O pó os herdou.
“Livros a R$ 15,00.”
O pó renunciou à herança.

11º campeonato · Ficção

"Ficcidências"

A família o interpelou após seu último livro.
A protagonista falava como a tia, vestia-se como a irmã e tinha traços da avó. O vilão era rude como o pai, tinha a mesma profissão do irmão e dirigia o mesmo carro do tio.
— Alguém aqui se chama Maria ou João?
Todos se calaram.

11º campeonato · Ficção

Desvio criativo

Desgostoso da vida, Flávio escreveu para si um final feliz.
Funcionou.

11º campeonato · Cobre

Cobertura do cobre

Fio desencapado, dourado.
A criança o viu.
Pai no trabalho, mãe na cozinha, babá no celular.
Engatinhou, pegou e puxou.
Disjuntor desligado, mas não o pai.

11º campeonato · Cobre

Entre dois mundos em guerra

A fiscalização noturna o descobriu.
Olhos acesos no escuro.
Quando a manga da camisa foi erguida, surgiram juntas douradas.
Condenado ao extermínio.
Na guerra contra as máquinas, até ciborgues pagavam o preço.

11º campeonato · Cobre

Condutor da luz

Comparavam-no ao ouro, sempre em desfavor.
Observavam-no com desdém silencioso.
Brilhava apenas em ouropel, nunca em prestígio.
Rompido.
Estavam todos sem energia.

11º campeonato · Melancia

Geometria alimentar

A sede pôs as crianças em linha reta e transformou a esfera em fatias.
Bocas simétricas devoravam-nas.
Pontos cuspidos durante a hidratação rubra.
A curva glicêmica reequilibrada.
Nos pratos, restaram arcos de casca:
o sorriso vazio do que havia sido doce.

11º campeonato · Melancia

Melancia no porvir

As melhores melancias foram reservadas para a tumba de Khaemurá.
Nenhum faraó atravessa o deserto vazio.

11º campeonato · Melancia

Cultivo indiferente

Dois irmãos dividiam a terra herdada.
O botânico as chamava de fruta,
o agricultor, vegetal.
As melancias apenas cresciam.

11º campeonato · Toa

“Procras…”

Vestia-se para o mundo.
O mundo nunca o via sair.

“…tinação.”

11º campeonato · Toa

“Procras…”

Vestia-se para o mundo.
O mundo nunca o via sair.
“…tinação.”

11º campeonato · Toa

Depois

Sempre aguardou por dias melhores.
Um dia, restou apenas o ontem.

11º campeonato · Toa

Sem rumo

Ela andava à deriva. A tempestade a fez ansiar pelo porto.

11º campeonato · Umbigo

Origem desconhecida

Cercamos o garoto.
— Onde estão seus pais? — perguntei.
— Não tenho pais.
“Filho de chocadeira?”, pensei.
Tiramos sua blusa.
Os olhos se arregalaram.
Ali, onde todos trazem a memória do primeiro vínculo, havia apenas pele lisa.

11º campeonato · Umbigo

Língua morta

No hospital, o médico perguntou na emergência:
— Onde dói?
— No imbigo.
O paciente ao lado, professor de língua portuguesa:
— No ouvido, não?

11º campeonato · Umbigo

Conexão emocional

Unha e carne.
Casca de bala.
Mãe e filha.
Parecia que o cordão umbilical nunca fora rompido.

11º campeonato · Moeda

Economia múltipla

— Como está o vô?
— Tá mal.
— Mas ele não tava bem, vó?
— Sim. Ontem o dólar subiu e o mal-humor dele desceu.
— E o que mudou hoje?
— Hoje a bolsa caiu e a pressão subiu.

11º campeonato · Moeda

Edição comemorativa

— Amor, essa aqui é linda, hein? Um real.
— Edição limitada. Dez anos das Olimpíadas no Rio.
Ela sorriu.
— Você me dá, Nonô?
O colecionador tomou-lhe a moeda.
— Isso é Real ou você está de sacanagem?

11º campeonato · Moeda

Não levou

95 no cofrinho.
100 no preço.
Era o último dos bonecos.
— Pode separar até sábado?
— Não posso.
A cliente seguinte comprou.
Mas não levou.

9º campeonato 3

9º campeonato · Confusão

Desconhecidos

Aniversário do seu Geraldo: 109 anos, casa cheia. O bisneto de sete anos lhe deu um presente. O idoso recebeu enquanto fitava o menino. Em seguida, olhou ao redor: tanta gente, tantos rostos. Sem recordações.

9º campeonato · Olhos

Incapaz

Estava tão bonita quanto triste. Seus olhos brilhavam. Todos presentes a cumprimentavam. Mas seu amado não pôde ver como ela ficou deslumbrante de preto, na solidão do luto.

9º campeonato · Estudo

Traição profissional

O vulcanólogo tornou-se um grande especialista, mas não o suficiente para evitar o fragmento do vulcão. Terminou em cinzas.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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