11º campeonato · Diálogo
Indialogável
— Oi, tudo bem?
—…
— Pode me ajudar? Preciso de uma informação.
—…
A moça de óculos escuros partiu enquanto o rapaz repetia sinais no ar sem sucesso.
11º campeonato · Diálogo
— Oi, tudo bem?
—…
— Pode me ajudar? Preciso de uma informação.
—…
A moça de óculos escuros partiu enquanto o rapaz repetia sinais no ar sem sucesso.
11º campeonato · Bolso
PIX? Raridade.
Carregava poucas notas.
Costurava bolsos em vão.
O furo era no cartão. Além do limite.
11º campeonato · Bolso
Rua escura, garoa fina, frio, névoa.
Suspeito cercado, mãos nos bolsos do casaco.
— Mãos na cabeça! — gritou um policial, arma apontada.
O homem tentou fitar os lábios do oficial, sem sucesso.
— Tire as mãos dos bolsos devagar... ambas na cabeça... vamos...
Ele as retirou rápido para gesticular.
BANG.
11º campeonato · Bolso
Sequestradores invadiram a casa do empresário.
Móveis e roupas simples. Nenhum objeto de valor. Nenhum saldo.
Sobre a mesa, comprovantes: orfanatos, asilos, hospitais, animais resgatados.
Frustrados, nada levaram.
O empresário sorriu. Mãos e bolsos vazios. Seu banco ficava no céu.
11º campeonato · Banda
Em terra de ex-leitor, quem tem banda larga é cego.
11º campeonato · Ficção
“Doam-se livros clássicos.”
O pó os herdou.
“Livros a R$ 15,00.”
O pó renunciou à herança.
11º campeonato · Ficção
A família o interpelou após seu último livro.
A protagonista falava como a tia, vestia-se como a irmã e tinha traços da avó. O vilão era rude como o pai, tinha a mesma profissão do irmão e dirigia o mesmo carro do tio.
— Alguém aqui se chama Maria ou João?
Todos se calaram.
11º campeonato · Ficção
Desgostoso da vida, Flávio escreveu para si um final feliz.
Funcionou.
11º campeonato · Cobre
Fio desencapado, dourado.
A criança o viu.
Pai no trabalho, mãe na cozinha, babá no celular.
Engatinhou, pegou e puxou.
Disjuntor desligado, mas não o pai.
11º campeonato · Cobre
A fiscalização noturna o descobriu.
Olhos acesos no escuro.
Quando a manga da camisa foi erguida, surgiram juntas douradas.
Condenado ao extermínio.
Na guerra contra as máquinas, até ciborgues pagavam o preço.
11º campeonato · Cobre
Comparavam-no ao ouro, sempre em desfavor.
Observavam-no com desdém silencioso.
Brilhava apenas em ouropel, nunca em prestígio.
Rompido.
Estavam todos sem energia.
11º campeonato · Melancia
A sede pôs as crianças em linha reta e transformou a esfera em fatias.
Bocas simétricas devoravam-nas.
Pontos cuspidos durante a hidratação rubra.
A curva glicêmica reequilibrada.
Nos pratos, restaram arcos de casca:
o sorriso vazio do que havia sido doce.
11º campeonato · Melancia
As melhores melancias foram reservadas para a tumba de Khaemurá.
Nenhum faraó atravessa o deserto vazio.
11º campeonato · Melancia
Dois irmãos dividiam a terra herdada.
O botânico as chamava de fruta,
o agricultor, vegetal.
As melancias apenas cresciam.
11º campeonato · Toa
Vestia-se para o mundo.
O mundo nunca o via sair.
“…tinação.”
11º campeonato · Toa
Vestia-se para o mundo.
O mundo nunca o via sair.
“…tinação.”
11º campeonato · Toa
Sempre aguardou por dias melhores.
Um dia, restou apenas o ontem.
11º campeonato · Toa
Ela andava à deriva. A tempestade a fez ansiar pelo porto.
11º campeonato · Umbigo
Cercamos o garoto.
— Onde estão seus pais? — perguntei.
— Não tenho pais.
“Filho de chocadeira?”, pensei.
Tiramos sua blusa.
Os olhos se arregalaram.
Ali, onde todos trazem a memória do primeiro vínculo, havia apenas pele lisa.
11º campeonato · Umbigo
No hospital, o médico perguntou na emergência:
— Onde dói?
— No imbigo.
O paciente ao lado, professor de língua portuguesa:
— No ouvido, não?
11º campeonato · Umbigo
Unha e carne.
Casca de bala.
Mãe e filha.
Parecia que o cordão umbilical nunca fora rompido.
11º campeonato · Moeda
— Como está o vô?
— Tá mal.
— Mas ele não tava bem, vó?
— Sim. Ontem o dólar subiu e o mal-humor dele desceu.
— E o que mudou hoje?
— Hoje a bolsa caiu e a pressão subiu.
11º campeonato · Moeda
— Amor, essa aqui é linda, hein? Um real.
— Edição limitada. Dez anos das Olimpíadas no Rio.
Ela sorriu.
— Você me dá, Nonô?
O colecionador tomou-lhe a moeda.
— Isso é Real ou você está de sacanagem?
11º campeonato · Moeda
95 no cofrinho.
100 no preço.
Era o último dos bonecos.
— Pode separar até sábado?
— Não posso.
A cliente seguinte comprou.
Mas não levou.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.