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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

Lucas Santos

@escritor_cego · 52 microcontos nos campeonatos 12º, 11º e 9º.

12º campeonato 14

12º campeonato · Nacional

Sonhava com berço esplêndido quando abortaram-me. O desenlace foi forçado, mas a fibra de minha raça cortou a tesoura, e o laço umbilical durou calendários, retesado duma nação à outra. Agora, semeio meu umbigo seco num jardim e rego-o com água de olho, antevendo que jamais germinará.

12º campeonato · Morte

ESPERANCÍDIO

Hipnos eternizou-me no pergaminho dos exilados. Atirei-me do leito que desonro, invejei a remela do gato e rastejei rumo à cozinha. Pus água no fogo e vasculhei a despensa. Nem sequer a última sílaba de café; só aranha e barata. A sina do inseto foi desviada da teia para a chávena.

12º campeonato · Calo

Ela lançou um caderno de caligrafia na lixeira e arrancou o curumim da carteira pelo braço. Entre trinta brancos e um quadro-negro, ele estendeu a destra palma, encarando a docente. No primeiro golpe, a fratura. Sua mão não precisou de ortopedista, e o marceneiro não conseguiu curar a palmatória.

12º campeonato · Chupeta

Encontrou um saco preto entre as correspondências. Dentro, um tronco. Na semana seguinte, pernas e pés. Depois, braços e mãos. Assim que recebeu a cabeça, rasgou o manual de instruções, cicatrizou o ventre e tirou do porta-joias uma chupeta usada.

12º campeonato · Bandeja

Não recebo salário nem gorjeta, mas sou um funcionário exemplar. Assim que os clientes deixam a lanchonete, corro de mesa em mesa recolhendo as bandejas. Sei que a ordem é descartar as sobras, e obedeço. Após o expediente, esvazio a lixeira dos orgânicos e faço o oposto com os estômagos da praça.

12º campeonato · Aurora

De jejum, debruço-me no peitoril da janela e como com os olhos a paisagem. A dama que sai desfilando da padaria não me encanta mais do que o dourado-fóton. Se a aurora soubesse que é apolínea, o que seria? Ela não sabe, porque não é humana. Eu seria mais narcísico, porque sou humano, e não aurora.

12º campeonato · Proparoxítona

CORREÇÃO

— Vamos lá! Encontre três proparoxítonas em sua casa — leu a professora.
Uma aluna ergueu a mão.
— Pois não, Bia.
— Cálice, bússola e óculos.
— Isso! Muito bem.
— Agora eu, tia! — gritou do fundo.
— Sim, Bruno.
— Cárcere, vítima e lágrima.

12º campeonato · Ilha

ILHA DAS FLORES

Escavando uma montanha com sua pá de plástico, achou. A alma quis devorar antes da boca, então ele pegou e correu, gritando pela mãe. No atalho, a topada. Sorriso caiu da cara, e os necrófagos pousaram bicando sua sorte. Quando o moleque limpou o chorume dos olhos, só viu gordura.

12º campeonato · Nervo

ENGRAMA

Enfermeiras questionaram, e o neurologista confirmou o boato. Após a colisão, o paciente narrava A Bela Adormecida e desejava bom sono a uma menina, todas as noites, no mesmo horário. Por milagre, ele não perdera parte alguma do corpo, mas sofria da síndrome do membro fantasma, em coma.

12º campeonato · Entrega

NEVE E FULIGEM

Tornou à sua pátria, com almas no sutache e a ânsia de ter um filho. Mas o ventre da noiva não tinha a mesma pressa. No outono, o "herói" apelou para a superstição: enjaulou uma cegonha. Assim, a gravidez seria certa, pensava. No inverno, o casal abriu uma entrega embalada em manta.

12º campeonato · Cãibra

Oceanos léxicos foram extintos. Não há mais "Sol" nem "céu" na nuvem. Através de um orbe óptico, o algoritmo detecta um fenômeno insólito, amplia a imagem e ajusta o foco. Saltando de torre em torre, o alvo cai. No relatório: "Sapajus nigritus acometido por contração muscular involuntária".

12º campeonato · Lago

Pus fé na vena amoris, finquei o joelho nesta margem e adornei com meu amor teu anelar. Enquanto teu cérebro planejava rotações comigo, meu coração esperançava translações contigo. Agora, sob bátega, encarando este lago, maldigo os egípcios, nomino-te Helena de Troia e atiro alianças às carpas.

12º campeonato · Virgem

A fauna sentiu gosto de mercúrio e hemoglobina na água. Do outro lado do igarapé, grafismos escorreram pelas bochechas de uma cunhatã, que delatou tudo ao cacique. Ao florescer do Sol, canoas regressaram à aldeia, e guerreiros desembarcaram um pálido com a medalha da Virgem Maria no pescoço.

12º campeonato · Cesto

Rugidos do estômago despertaram-me. Aos bocejos, corri descalço até a cozinha. Vi mesa sem migalhas, lenha fervendo água e cesto coberto no chão. Achei ser pão, mas algo se mexia dentro. Tirei o pano e sorri. E a voz do facão sendo amolado no terreiro revelou-me: "O coelho não é de estimação".

11º campeonato 32

11º campeonato · Diálogo

MICROCONTO ESCRITO POR CHAT GPT

— Como você se sente ao ser trocado pela gente? — provocou a meia-risca, abraçada ao hífen.
O travessão deu de ombros e respondeu:
— A IA não me esqueceu.

11º campeonato · Diálogo

Tirei fronhas, sacudi cobertas, ergui o colchão, movi a cama, abri gavetas... Nem rastro. Obedeci ao relógio: vesti o uniforme, pus a máscara e saí. Na rua, nenhuma face nua. No ônibus, sequer fonema. No centro, vitrines ofertando bocas por apenas 50 salários mínimos.

11º campeonato · Diálogo

LÍNGUA UNIVERSAL DE SINAIS

Ama dialogar no trânsito. Seu sinal favorito? Dedo médio.

11º campeonato · Fotografia

JANTAR

Aguardava-o na sala, absorta pelos paredões de retratos. Preta, branca, parda, ruiva, loira, morena: todas abraçadas ao invisível. O relógio badalou. A coruja piou. As velas tremeluziram. O assoalho rangeu. A fome emergiu da penumbra. Séculos após o flash, ela ainda sente o pescoço arder.

11º campeonato · Fotografia

DERMOGRAFIA

— Tem foto disso, bisa?
Aos tremores, escorando-se na bengala, ergueu-se da cadeira, deu-me as costas, mandou-me arribar sua blusa e murmurou:
— O resistro tá na carne, minha fia.

11º campeonato · Fotografia

RELICÁRIO

Pasmou a Ortopedia. Aos 95, nem hérnia de disco. No pescocinho, duas eternidades.

11º campeonato · Bolso

VALOR

Fiquei inconsolável quando papai chegou do trabalho tirando uma chave do bolso e exclamando ser meu presente de aniversário. Enquanto ele e mamãe sorriam, eu chorava a ausência de minha boneca dos sonhos. Hoje, quando ouço a chuva cair no teto, recordo-me disso e choro sorrindo.

11º campeonato · Bolso

COM AMOR, TIO.

Para todos, três anos; para mim, três séculos. Enfim nutri coragem para doar o que restou. Benzi-me, destranquei o quarto, encarei retratos e abri o guarda-roupa. Cupins e traças roíam memórias. Tirei do cabide e sacudi a jaqueta. Do bolso, caíram uma carta e um teste de DNA.

11º campeonato · Bolso

CADEIA TRÓFICA

Suas visitas sempre questionavam o terrário das baratas, e o mão de vaca prontamente mugia:
— É para manter os bolsos bem alimentados!

11º campeonato · Banda

ADICIONAL NOTURNO

Estenderam o tapete vermelho. A banda larga chegou ao interior. Cabo pra tudo quanto é lado. O mundo conectado, exceto eu. Papai, homem antigo, cedeu aos meses de insistência. Deliciosos 750 Mega. Ganhei vídeos, músicas, jogos, amizades, namoros — mas perdi o beijo de boa noite.

11º campeonato · Banda

ZELO

Foi o primeiro a chegar. Era a estreia da filha. Encheram o auditório. Cortinas abriram. Enxugou a testa e pôs a flanela no ombro. Lá estava sua vida, tocando violoncelo, ao fundo do tablado. Cortinas fecharam. Esvaziaram o auditório. Enxugou os olhos e voltou a varrer. Foi o último a sair.

11º campeonato · Banda

DOCE LATIDO

Descobriu onde a mãe escondia: em cima do armário da cozinha. Arrastou uma cadeira, pôs um tamborete no assento e subiu. Tateou. Poeira. Tateou. Poeira. Achou. Desceu, limpou as mãos no vestido e rasgou a embalagem. Uma banda de chocolate para ela, outra para Mel.

11º campeonato · Ficção

EDITOR

Faz dois anos que recebi aumento. Até hoje espero o diretor gritar:
— Corta!

11º campeonato · Ficção

ERA UMA SÓ VEZ

Uma ONG levou crianças ao cinema. Uma, duas, três, quatro semanas depois, ainda conversavam entusiasmadas sobre o filme. Após dois meses, a ficção das telas foi baleada pela realidade das vielas.

11º campeonato · Ficção

Anos após ser traído com um homem mais velho, ainda procurava o cheiro da ex-esposa nos lençóis. Porém, julgava humilhante aceitá-la de volta. Então, fez uma máquina do tempo e viajou para um ponto anterior ao da traição. Ao encontrá-la e beijar sua mão, não viu aliança — estava escondida na bolsa.

11º campeonato · Cobre

SEMIANALFABETO

Seu Chico, metalúrgico e divorciado, já maquinava o plano quando assinou o contrato do seguro de vida.
— Cobre tudo, tudo, tudo! — garantiu o vendedor.
Exatamente uma semana depois, deixou um bilhete de despedida, convencido de que suas filhas seriam amparadas.

11º campeonato · Cobre

YORK

Toda sexta, Severino costumava vender cobre ao ferro-velho. A procedência era suspeita, mas nunca recusavam. Certa vez, sumiu por dois anos. Disseram estar preso. Porém, numa sexta qualquer, reapareceu puxando seu carrinho.
— Meu Deus! Que isso, Severino?!
— Minha Liberdade financeira!

11º campeonato · Cobre

NARIZ DA INFÂNCIA

De castigo, virado para a parede, o tacho de cobre é casa de teia e poeira, mas sinto ainda o perfume daquele doce de leite.

11º campeonato · Melancia

ESCOLA

Ficou conhecida como "a menina que engoliu uma melancia".

11º campeonato · Melancia

FEIRA

— Grande e vermelha, com sementes; grande e vermelha, sem sementes; pequena e vermelha, com sementes; pequena e vermelha, sem sementes; grande e amarela, com sementes; ou grande e amarela, sem sementes, freguês?
— Mendel filho da...

11º campeonato · Melancia

Algibeira emagrece na cintura. Facão oxida na bainha. Fruto cabe inteiro na palma da Esperança, que o parte com um canivete. Mais que novamente, vísceras não esboçam vermelho. Esperar vira resignar, diluvia os olhos, prostra-se no deserto e, lembrando-se da surdez de Deus, cala-se no meio da reza.

11º campeonato · Ano

ULTRAPASSAGEM

Em 2025, um 2026 colidiu frontalmente com um 2007. No primeiro, uísque 21 anos. No último, 33, 29 e 2.

11º campeonato · Ano

METAFÍSICA-ZUMBI

Ainda usa o calendário de 2005, ano de sua morte.

11º campeonato · Ano

MULHER-CALENDÁRIO

Na barriga, a data de nascimento.
Nos joelhos, os anos de infância.
Nos pulsos, os de adolescência.
No rosto, os de casamento.

11º campeonato · Toa

Uma tartaruga-marinha estava presa a uma rede, e um tubarão-tigre aproximou-se. Ela viu a morte e trancou os olhos. — Não tema! — disse ele — Te atoo até a praia. A pobre mal teve fôlego para agradecer. Minutos depois, perto da areia, sangue na água. Ela precisava de nutrientes para pôr seus ovos.

11º campeonato · Toa

Saquearam um navio espanhol no Mediterrâneo e rebocaram-no rumo à Turquia. Bocejando e chupando laranja na proa, dois piratas apostaram, cada um, três safiras e um mosquete. O desafio era muito simples: ir de uma nau à outra pela toa. O corajoso partiu, e o covarde ficou — mais rico e intimidador.

11º campeonato · Toa

À deriva no Atlântico, pescadores clamaram ajuda a Alá. O mar borbulhou, e a toa tensionou de repente, como se puxada por um submarino. A tripulação ajoelhou-se no convés e elevou as mãos, glorificando, amiúde:
— Allahu Akbar!
Casablanca inteira soube do milagre.
Dias depois, arpoaram uma jubarte.

11º campeonato · Umbigo

2126 d.C.

Encontro de almas. Corações bailando salsa. Conversamos as horas extras do bar. Partimos para minha casa. Fechei a porta, pendurei a jaqueta no mancebo e fui empurrado contra a parede. Camisa, calça, blusa, saia: tudo no chão. Descendo aos beijinhos, parei na barriga. Não tinha umbigo.

11º campeonato · Umbigo

APÓS A CHUVA

No quintal do viúvo, um casal de formigas mergulhou na piscina.

11º campeonato · Umbigo

SD PM GONÇALVES

Criança, questionava o segundo umbigo do pai. Adulta, agradece por ele não ter três olhos.

11º campeonato · Moeda

ISAC MILTON

Subtraiu-se da aula de álgebra. Havia calculado os pontos cegos do monitor e desenvolvido uma fórmula para saltar o muro. Checou os lados, lançou a mochila, ganhou impulso, escalou e aterrissou. No bar do outro lado da rua, a alavanca salivava pelo dinheiro do lanche.

11º campeonato · Moeda

PRESBÍTERO

Ocorria um fenômeno estranho naquela igreja. Todos os fiéis ofertavam ao menos um centavo, porém o gazofilácio só vivia magro. As visitas dos moleques após as missas acenderam a desconfiança do diácono, que redobrou a vigilância, mas nunca os flagrou. Afinal, não furtavam; eram pagos.

9º campeonato 6

9º campeonato · Cobertor

MALAS NO ELEVADOR

Fiz o hábito da alvorada: saí à sacada e acendi um cigarro. Traguei, elogiei o loiro do Sol e notei um odor. Muito me era familiar. Minha namorada usava aquilo para remover o esmalte. Curioso, procurei a origem. Vinha da varanda vizinha. Duas cobertas brancas secavam no varal.

9º campeonato · Confusão

SÊNIOR

Sob a norma de que uma só carta pode ser escolhida, ele assiste ao Mundo dispor o baralho dos sonhos. Cartas muitas lhe são atrativas; demora nelas os olhos. As alternativas parecem-lhe infindas. A mão quer pegar, mas ele hesita. Hoje, faz 79 anos que é um admirador de sonhos.

9º campeonato · Olhos

CHARLATÃO

O rei da terra de cegos não tem olhos, mas lábia.

9º campeonato · Vaso

VASO CORONÁRIO

A filha chegou primeiro. O garçom da cafeteria deu-lhe o menu. Ela leu de cima a baixo, frente e verso, aprovou e reprovou, mas nada pediu. Aguardava a mãe, que não retornava mensagens, nem ligações. Após 1h30 de espera, ela saiu depressa do estabelecimento, descafeinada.

9º campeonato · Mentira

SABOR CARBONO

Acordou cedo, olhou pela janela e nada viu além de névoa. Empolgou-se. Sempre quis provar do famigerado açúcar das nuvens. Saltou da cama, correu à varanda e escancarou a boca. Quando mordeu um pedaço, fez careta. Mentiram. Não tinha gosto de algodão-doce. Foi escovar os dentes.

9º campeonato · Estudo

X = 4M0R

— Quando o número passa pro outro lado da igualdade, seu sinal é invertido. Nesse caso, o negativo vira positivo. Entendeu, papai?

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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