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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

Christofer da Silva Barbosa

@fit.khris · 14 microcontos nos campeonatos 12º e 11º.

12º campeonato 7

12º campeonato · Nacional

O País que Ainda Pulsa
Disseram que o Brasil havia morrido. Naquela noite, porém, uma criança plantou uma bandeira sobre seu túmulo. Anos depois, ninguém soube explicar por que, naquela primavera, o chão começou a pulsar. Ela sabia. Tinha ouvido a pátria chamar pelo seu nome.

12º campeonato · Morte

A Última Fotografia

Ela pediu que eu sorrisse. Disse que queria guardar aquele momento para sempre. Obedeci. Anos depois, encontrei a fotografia entre suas coisas. Ela continuava sorrindo. Eu, porém, não aparecia nela.

12º campeonato · Chupeta

O Costume

Quando o filho chorava, ela colocava a chupeta em sua boca. Quando cresceu, ele a guardou numa gaveta. Anos depois, ao voltar para casa, encontrou a mãe dormindo na poltrona. Sobre seu colo, a velha chupeta.

12º campeonato · Aurora

Aurora

Ele morreu durante a noite. Ela não chorou. Sentou-se à janela e esperou o amanhecer, como fazia todos os dias. Quando a primeira luz tocou seu rosto, sorriu. Só então percebeu que, pela primeira vez, não tinha ninguém para quem dizer: “Olha, amor. A aurora.”

12º campeonato · Ilha

A Ilha

Todos os dias, ele se sentava à mesma mesa e conversava com ela. Contava do trabalho, do jantar, das pequenas coisas. Ela nunca respondia. Quando os filhos venderam a casa, encontraram duas cadeiras diante do mar. Em uma delas, havia apenas um retrato.

12º campeonato · Nervo

O que ainda sente

Arrancaram o nervo.
A dor ficou.
Talvez algumas coisas não precisem de corpo para continuar vivas.

12º campeonato · Lago

O Lago

Ele voltava àquele lago todos os anos. Não para lembrar dela, mas para esquecer. Ainda assim, toda vez que o vento tocava a água, seu reflexo desaparecia primeiro — como se até o lago soubesse que algumas ausências nunca aprendem a ficar quietas.

11º campeonato 7

11º campeonato · Diálogo

Você falava olhando para a janela, como se a rua pudesse responder por mim. Eu respondia olhando para o chão, como se ali estivesse a saída. No fim, ninguém gritou. Só ficou claro que aprendemos a conversar tarde demais.

11º campeonato · Diálogo

Entreaberta

Você dizia “estou bem” do mesmo jeito que fecha uma porta sem trancar. Eu fingia acreditar, como quem passa por ela sem testar a maçaneta. Um dia a casa ficou vazia, e nós dois jurávamos que o outro tinha saído primeiro.

11º campeonato · Banda

Desafino

A banda não acabou por falta de talento.
Acabou porque ninguém soube pedir desculpa.
No último ensaio, erramos a mesma nota de sempre —
orgulho.
E foi a única que soou perfeita demais.

11º campeonato · Banda

Volume Alto

A banda tocava alto demais para aquele bar quase vazio. O garçom batucava no balcão, fora do tempo, e um casal discutia sem perceber o refrão. No meio do solo, a luz piscou e ninguém aplaudiu. Mesmo assim, o vocalista agradeceu como se tivesse sido inesquecível.

11º campeonato · Cobre

Fio

O cobre passava invisível pelas paredes da casa, levando luz para todos os cômodos. Ninguém pensava nele, até que a energia falhou. Foi então que entendi: há coisas que só percebemos quando param de sustentar o que parecia natural.

11º campeonato · Umbigo

No centro do corpo, um pequeno nó —
como se alguém tivesse amarrado ali
a primeira lembrança de existir.
O umbigo não fala,
mas guarda o eco de quando fomos dois
e o mundo ainda cabia inteiro
dentro de outro mundo.

11º campeonato · Moeda

Ele girou a moeda no balcão como quem consulta o destino.
Cara: ficava. Coroa: partia.
A moeda caiu de pé, encostada no copo vazio.
Ele entendeu que algumas decisões não querem sorte — querem coragem.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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