5º campeonato · Estrela
MÁGICA
Sentada sobre a areia, eu esperava ansiosa o momento em que o sol pudesse mergulhar no horizonte. O declínio era meramente conveniência, apenas necessidade de descansar. No dia seguinte, dependendo de como foi a noite, ele reaparecia sem hora marcada, às vezes mais cedo, às vezes mais tarde. Em dias de pranto, tirava férias. Para meu pesadelo, chegavam as tempestades.
Por toda minha vida, eu nunca tinha estado por tanto tempo sobre o solo. É melhor não se adaptar a algumas coisas. Quando precisei sair pela primeira vez foi por travessura, na juventude nasceu em mim o desejo de contrariar. A sensação de oposição é mágica, de alguma forma, desperta atenção. Quem não deseja ser a protagonista? Seguindo a contragosto, causei inúmeros burburinhos na colônia. As anciãs criticavam jogando sombra no meu corpo: “Jerusalém só vai sossegar quando o sol tostar ela e toda família.” As mais jovens invejam, mas também lançavam filtros: “essa alucinada adora ser o centro do universo.”
Eu era muito verde para ligar para tais perigo, eu queria curtir a fama. Brilhar sob o sol. Aos poucos, fui suportando a temperatura da atmosfera, resistia 160 segundos. Tempo suficiente para causar inveja nas aranhas. Durante os dois minutos, eu me escondia sob a vegetação para suportar o calor. Após um tempo, eu não estava mais sozinha. Até às estrelas cadentes me seguiram.
5º campeonato · Pétala
AROMA
Eu não sou urubu! Gostaria muito de voar livre, ir a lugares distantes, bicar rabo de bicho besta. Pousar calmo, guiar um bando. Dormir nas palhas de coqueiros. Mas não me deram asas. Que pena!
Se pelo menos, eu fosse siri, teria longas pinças. Depois de nadar pelos rios e mares, descansaria nas lamas dos manguezais sentindo o cheiro podre de folhas e animais. O que interromperia essa vida monótona? Com certeza um corpo boiando implorando para ser devorado.
Tenho que voltar a realidade, sou simplesmente um verme. Não tenho sexo, nem para transar tenho competência. Sou assexuado ou assexuada. Enfim, sou epiceno. E da pior natureza, rasteiro.
O cheiro de decomposição faz parte da minha existência. Não fosse os defuntos, eu não teria vida. Eu não passo de um limpador. Sou gari dessa civilização animal. Vão morrendo, eu vou trabalhando, moldando e equilibrando a vida.
Convidaram-me para degustar um defunto. Antes de roer a carne, sinto uma fragrância incômoda me trazendo sentimentos positivos. Que aroma perturbador é esse? O cheiro vem dominando meu corpo, tenho náuseas. Pensamentos felizes surgem, desejo ser um beija-flor, voar pelos limpos campos verdes. Que absurdo! Quem sabe ser um pombo portando notícias positivas. Que imbecil! Que aroma é esse?
Luto contra o repelente. Aproximo-me do cádaver, o corpo está envolvido por um manto de vegetais vermelhos. Eu nunca tinha visto nada igual. O perfume impedia que eu me aproximasse do morto. Antídoto para vermes é aroma. Eu não sabia, mas minha inimiga abelha, que estava de passagem por ali, disse ser pétala de rosa o produto final da decomposição feminina