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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@georgelucas488

15 microcontos nos campeonatos 5º e 4º.

5º campeonato 1

5º campeonato · Ninguém

Ninguém saberia fazer a si mesmo se não fosse por meio da primeira e segunda pessoa, ninguém é o singular e plural de si mesmo.

4º campeonato 14

4º campeonato · Bilhete

Recebera um convite. Suspeito. Porém Só ele não via o bilhete que a cor de sua carne trazia.

4º campeonato · Drama

A voz da Morte se faz ainda em vida
Olhava a lua, a contemplava de sua miséria. Nascera como filho e foi amado se um dia houve amor, foi odiado e sua ira nasceu. Buscou vingança, não com espadas. Naufragou em fuga, alimentou-se da fome, lutou como pôde e envenenou-se assim, dia após dia, quis vencer antes que aprendesse a perder, ergueu seu estandarte, mas nascera para morrer, nasceu e hoje morre sem nome, nosso auspicioso guerreiro.
-Qual o seu nome?

4º campeonato · Romance

Amar o Amor ao mar
Pedro amava Ana com toda sua alma, mas Ana só se permitia amar o mar em nuvens. Amália amava Isadora com ternura, porém Isadora amava amar-se em superfícies, e nada mais.
Rosa ainda não amava ninguém, mas Amaram-se o amor, todos iguais.

4º campeonato · Fantasia

Aquário

A onda do mar trazia com delicadeza pequenos peixes que sorriam para mim. Olhei bem em seus olhos tão condescendentes de amor e selvageria. Perguntei-me como os peixes poderiam amar, e em suas escamas pude ver entre os restos do mar, os restos de mim. Adotei por fim, e no aquário os peixinhos que dormiam amanheceram com dentes e olhos de tubarão.

4º campeonato · Fantasia

Ásramim

Ásramim era amado, o céu e a terra eram bons para ele, o sol e a lua cintilavam sua candura, seu sorriso refletia sobre as águas que o levava por entre lagunas e mares. Mas para Ásramim faltava algo, algo que desconhecia, e que teria que roubar, ou inventar. Ele percorreu todo o véu nascente, andou pela vasta escuridão por 600 anos, até que um dia foi capaz de proferir a palavra, e todo o universo entoou seu cântico.

4º campeonato · Fantasia

O céu de Ana

Ana adorava olhar o céu noturno e ver as estrelas. Desconhecendo todo o céu, nomeou ela mesma cada estrela, mas não contou a ninguém, guardou como o mais sagrado segredo.
Quando alguém via sua fascinação pelo céu e suas estrelas, tentando ensiná-la sobre o nome das constelações, Ana esboçava um sorriso de vitoria.
Ana estava livre e criou suas próprias constelações, só ela podia ver, mesmo que já fossem antes dela.

4º campeonato · Terror

Sussurros

Ela estava sentada ouvindo o que não podia ver. Minutos depois, começaram a gritar, e o som de passos rompeu a paisagem. Ela podia ouvir claramente, pessoas se empurrando, pisando umas nas outras em fuga, o desespero a paralisou pedindo uma ação, o terror assolou sua alma. Quis correr, mas não sabia de onde o perigo vinha, ou para onde ia. E após eternos segundos, silêncio, mas antes pôde ouvir sussurros.

4º campeonato · Humor

Pedro adorava uvas, e Em plena ceia Para conjugar o verbo, a uva passou, a uva passa . Mas Pedro era alérgico

4º campeonato · Pico

O NASCIMENTO DA VIDA

As seis horas por entre as miragens moventes da areia do vale, nasciam picos que se faziam visíveis por breves minutos, em dias intervalados de 6 semanas, os mesmos ficavam visíveis por uma hora, e nada mais. Cabia aos nativos das dunas apenas observá-los nascer e desaparecer por entre a areia que se movia como um réptil, em ondas, dando a revelar seu mistério e quando já cansada, escondia-se em si para o repouso. E então a chamaram: A areia que vive.
E dos picos tão altos dissonantes da paisagem via-se portas a abrirem, e eles os chamaram: os ossos da terra. Ninguém ousava para além da observação, todos temiam, todos achavam que era uma mensagem dos deuses, mas Airapoã por arrogância quis conquistar o que não se pode ter, e saiu por entre a areia, que ao vê-lo atravessar com tamanha imponência cantou uma canção própria para o seu ar infantil, e nasceu o vento que adentrou o corpo de cada ser, e enquanto Airapoã seguia em frente, nos céus nuvens se juntaram e tornaram o sol ameno, mas Airapoã caminhava em frente e se deixava cego para tudo o que acontecia por suas costas.
A Areia que antes dançava tornou-se violenta e em cada passo soava como chicotes, e todos começaram a sentir fome e sede, mas Airapoã seguia, e estava insensível para as mudanças em seu corpo de criança. Mas chegou, e se sentiu forte, gravou nos ossos da terra sua runa, e seus olhos negros agora doem, e seu povo, por ter Airapoã gravado sua runa nos ossos da terra tornaram-se um só com a areia, e tiveram que saber o principio de cada coisa, e em suas bocas a palavra nascimento teve que ser pronunciada, e Airapoã deu inicio ao que antes apenas era para viver a sina de nascer, pois agora seu povo havia de gerar-se .

4º campeonato · Policial

Coração materno

Refletia entre os seus olhos e o brilho metálico do disparo uma imóvel ternura propícia ao terror.
A fúria febril do disparo atravessou a distância e fez morada em um coração materno, impos sua sina de nascença, sangrar até a imortalidade duradoura de sua vida sob o ébano a carne

4º campeonato · Ontem

Ontem desmaiei sobre as inúmeras viagens que só hoje terei que fazer, as viagens que de outro modo não encontrava motivos para fazê-las.
Ontem me deparei com os restos de um outro eu, alguém que teria sido, que foi, e que vai vir a ser.
O ontem esconde os restos solidificados e os pressentimentos de meu futuro, futuro que esqueço quando já tomado pela ardente e efervescente ternura do amor.
O ontem maltrata minha alma, assim como o futuro desfalece meu espírito, e o passado fere minha carne, e o presente é a adaga que fere, e me paralisa para ação.
Ontem pedia a Deus de olhos e peito fechados, hoje revolto-me contra minha própria face. Amanhã serei eu mesmo minha infecunda ação.
Amanhã sorria, sorria como o garoto que era no mês que a de vir, e hoje sou o que vou vir a ser daqueles anos passados.

4º campeonato · Sinais

O sinal de Margot

Aaaaa. Quanta indignação Margot sentia contra todas aquelas palavras que eram indecifráveis para ela, e só para ela. Sim, uma tremenda indignação, pois para Margot nada diziam aqueles sinais. Poderia ela devorar qualquer letra, número, sinal, acento, pontuação, ou mesmo tirar de si mesma algum daqueles símbolos que ainda assim, mesmo assim, do mesmo jeito, tudo lhe parecia igualmente confuso e ridículo.
Mas ela tentava, dava para os olhos a missão, tentava, tentava, e tentava e nem mesmo a pronúncia parecia-lhe familiar. Mas Margot não desistia, era absurda em sua convicta incerteza que suplicava aos céus um acerto. Margot queria tanto ao menos conseguir diferenciar isso daquilo que esquecia por completo o que havia apreendido de seu aprendizado a poucos segundos atrás. Margot esquecia tudo, ela chorava, se inquietava, batia os pés aprovando a reprovação de si mesma. E chorou.
Com os olhos cheios sentiu-se boba, parou um instante, e olhou para seu caderno onde as letras de sua professora misturavam-se com as fontes ainda "nascentes" de sua letra, e riu de si mesma. Sim, o riso foi o sinal de vitória de Margot. A vitória final sobre sua impaciência.

4º campeonato · Alunos

(A porta que ri noite a dentro.)
Por entre os alunos da escola Padre de Barros corria um boato. Diziam sempre em voz baixa, quase sussurrando para conservar o ar auspicioso do mistério, e pelo excesso de ar que deixava a voz quase inaudível, provocar calafrios, pois assustarem-se era o mais glorioso prazer entre alunos do fundamental.
Diziam eles que a noite quando terminavam as aulas e o prédio ocupado perdia sua função, tornava-se visível uma pálida luz na biblioteca, que sons de correntes e grunhidos eram ouvidos, e que por vezes batidas no solo, e nas paredes se faziam audíveis.
-Mentiroso.
Acusavam-se, e já não sabiam se era de fato mentira, pois queriam acreditar, ao mesmo tempo que negavam para si mesmos. Mas sempre havia alguém para confirmar, um primo distante, ou os próprios pais que ali estudaram. E as suspeitas ganhavam um ar de veracidade quando interrogavam por qual motivo a escola só funcionava pelo dia, ou porque o vigia que ali ficava havia sumido, e esclareciam que ali já fora um hospício, e muita gente havia morrido. E o veredicto vinha com a necessidade de esclarecer a questão.
- Então vamos vir todos a noite para ver?
Sugeriu mesmo com medo, em desespero todos concordaram, pois é necessário demonstrar coragem mesmo que a sua falta da seja evidente, e assim combinaram as sete horas em frente a escola. Assim tudo se seguiu como o combinado, sem falta lá estavam diante dos seus próprios olhos, avançando quando era propicio recuar, frente a frente com o prédio viram as luzes ascenderem como se sua chegada fosse aguardada, a porta abriu e diante deles estavam duas figuras, uma criança e uma mulher magra e muito alta, tão alta que seu corpo se curvava sobre um longo par de mãos que os acenava estendendo-lhes as mãos. Neste momento a lua emergiu dentre as nuvens e um riso rompeu o silencio obscuro daquela cena, a escola sumiu por entre as árvores, o portão do lado esquerdo abriu violentamente, e todos correram.

4º campeonato · Selo

EU & ELA

Ela era como a noite, as noites pelas quais percorria entre o branco e o negro entrelaçados mutuamente sobre folhas, folhas que dela selavam coisas que não sei, assim como não sei que nome nela e para ela residia.
Era um mistério consolador vê-la noite após noite por trás de persianas já gastas, não lembro quando, ou em que momento dei por mim para a sua existência, estava tão absorvido no delirante mistério de possuir sua imagem que sentia no meu mais intimo pensamento que ela sempre estivera ali. Mas era mentira.
Como um simples suspiro ela percorria as noites, e junto a minha janela eu a assistia escrever, não sei se cartas, romances, crônicas, ou um diário, mas sei que criei a necessidade de descobrir o que era de tamanha urgência para aquela estranha familiar que valia o desperdício da própria existência, sobrevivendo em seu frágil cansaço.
Criava e alimentava um estranho fascínio, uma adoração, uma duvida cruel e amarga, e por fim, uma curiosidade sem limites. A repetição religiosa de seus atos tornavam-se um espelho para o religioso ato de minha observação, e não havia nenhum movimento dela que não inspirasse um fragmento espelhado em mim.
Dia após dia, noite após noite, tudo igual. Tudo se seguiu igual, até um dia, uma noite que já não lembro. Nesta noite ela não escreveu nada, chegou perto de sua escrivaninha, olhou pela janela, chorou, e fez algo que nunca havia feito, atirou tudo ao chão. E por fim pegou as folhas, uma por uma, rasgou e as trancou em uma caixa. E por fim em um enérgico desespero fechou as cortinas em um ato de desprezo por mim. Foi assim que pude me ver, velho, cansado, e amargo, a vida passara por mim, e nada conhecia, e só me restara a singela lembrança de sua janela e as cartas que foram seladas, as quais nunca li, nem escrevi.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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