5º campeonato · Baralho
A nossa amizade era como um castelo de cartas, construída com esmero por uma criança entediada que só tinha uma baralho e um sonho. A cada jogo uma nova peça era adicionada ao todo. Mas a frieza predatória do tempo tratou de fazer ruir construção tão magnífica. Não se joga mais. Não se fala mais. Fim.
5º campeonato · Baralho
Estava no bar, baralho na mesa. Sentiu um calafrio. Não, não podia, disse muito cortez. Insistiram. Só uma vez não faria mal. Pois bem, embaralhou. Perdeu a casa. Perdeu a mulher. Perdeu a vida.
5º campeonato · Baralho
Começou o jogo do diálogo. Pegou do baralho as cartas que o destino lhe ofereceu. Era apenas uma. Um dois de copas de pouco valor. Pensou se valia a pena. Capitulou. Fim da conversa, início do silêncio constrangedor.
5º campeonato · Cebola
CASAMENTO
O traje exigido era o esporte fino. Lamentou-se pelo sedentarismo, mas estava determinada a ir. Vestiu-se com seu antigo vestido vermelho. Roupa de missa. Uma joia, para disfarçar a carência. Mas os únicos anéis que tinha eram os de cebola
5º campeonato · Cebola
TROCANDO CEBOLAS
Faça isso. Faça aquilo. Receber ordens lhe dava irritação. E a troco de que? De migalhas. Disseram que quem conseguisse superar as metas todos os mêses do ano seria promovido. Fez hora extra. Matou o lazer, matou a família. Matou a si mesmo. Mas conseguiu. Em fim, seria feliz. No primeiro dia, recebeu as ordens do seu novo cargo.
5º campeonato · Cebola
Tentou médicos e remédios. Curandeiros e pajes.Fez ultrassom, tomografia e ressonância. Fez rituais cristãos e pagãos. Fez chá de casca de cebola. Mas nada curava sua garganta, onde um nó havia persistentemente se instalado.
5º campeonato · Nota
COR
Grupo de amigos no shopping. Entre conversas fiadas e risadas compraram algumas roupas. Somente um deles guardou a nota fiscal. Quando saiam da loja um segurança se aproximou. Somente um deles foi abordado.
5º campeonato · Nota
Dedilhava o piano, a esmo. Não era Vivaldi ou Bach. Era a sinfonia da vida. Nela, nunca se sabe a próxima nota. Você toca dó e sai lá menor sustenido. Muitas vezes se erra o compasso e se sai do ritmo. Mas há sempre o recomeço.
5º campeonato · Nota
Trabalha de forma exaustiva do raiar do dia até o anoitecer. No final do mês, é roubado. O fruto do seu trabalho sustenta mais o ladrão do que a sua família.Fica apenas farelos. Ele alimenta seus filhos e fica com as sobras. A mídia diz: "como reaproveitar as migalhas que caem da mesa". O governo solta uma nota de repúdio.
5º campeonato · Nota
Trabalha de forma exaustiva do raiar do dia até o anoitecer. No final do mês, é roubado. O fruto do seu trabalho sustenta mais o ladrão do que a sua família.Fica apenas farelos. Ele alimenta seus filhos e fica com as sobras. A mídia diz: "como reaproveitar as migalhas que caem da mesa". O governo solta uma nota de repúdio.
SEMANA 2
DIA 4
DESEJO
marcondesjamacaru
DESUMANIZAÇÃO
Negaram-lhe o último desejo no corredor da morte.
5º campeonato · Desejo
NOTA DE FALECIMENTO
Beijaram-se loucamente. Acariciaram-se de todas as formas possíveis. Abraçaram-se com força, para estrangular os últimos vestígios de saudade. Com o corpo queimando de desejo, entregaram-se. Não sobreviveram.
5º campeonato · Desejo
Quando criança, desejava voar como os pássaros no céu. Sonhava em cortar o ar, deitar numa fofa nuvem de algodão para descansar. Um dia, tentou. Os pais choraram. Infelizmente, desejar não é o suficiente.
5º campeonato · Desejo
DESEJOS
Acabar com a peste, com a fome e com a guerra. Dar as crianças uma escola de qualidade, asas que não derretem com o sol. Liberdade. Como disse o poeta, é muito engraçado que todos tenhamos os mesmos sonhos e que esses sonhos nunca virem realidade.
5º campeonato · Ninguém
Correu. Seu corpo tremia com o esforço. Já fazia quanto tempo? Duas horas? Em algum momento suas pernas pararam de responder. Caiu no chão. Gritou, desesperada por socorro. Ninguém veio. Incomodaram-se com a notícia que veio no dia seguinte. Um assassinato bem na porta de casa com certeza desvaloriza o imóvel.
5º campeonato · Vazio
Levantou-se antes de amanhecer, desejando nunca mais ver aquele homem. Nem corpos, nem copos, nem o ego foram capazes de preencher o buraco que ela havia deixado no lugar do seu coração. Agora, só restava um espaço vazio que sangrava sempre que Joana se lembrava do adeus que ela nunca quis dar.
5º campeonato · Vazio
Declamou os mais lindos poemas. Entre declarações de amor e palavras de afeto, conquistou confiança. Marcaram um encontro numa fazenda dos pais dele. Ninguém escutou os gritos da amada. Morte rápida como prova de amor. Aquele belo coração valeria uma fortuna. Olhou o cadáver vazio. Riu, pensando que suas palavras eram ainda mais vazias.
5º campeonato · Vazio
A casa estava vazia, finalmente. Largou-se no sofá com um suspiro. Ligou para ela. Sentiu-se viva.
5º campeonato · Corpo
Olhou para aquela peça anatômica embebida em formol. Imortalidade anônima em nome do conhecimento. Doou seu corpo antes de morrer. Até isso lhe foi negado.
5º campeonato · Corpo
Admirou mais uma vez a beleza daquele corpo nu. O desejo mais uma vez o consumia, queimava sua pele. Mas ela já não era a mesma. Não houve "mais uma vez". Dor.
5º campeonato · Corpo
Deixou a água quente escorrer por todo seu corpo. Ela relaxou seus músculos, lavou as preocupações. A ansiedade foi substituída por uma agradável sonolência. Dormiu. Claro, haveria um amanhã. Mas agora só o sono importava