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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

Jessika Gabriela

@jessika_gabriela · 46 microcontos nos campeonatos 12º e 11º.

12º campeonato 14

12º campeonato · Nacional

Igualapã

​Jogada na gruta de um coração café com leite, entre afluentes estrangeiros. Que lugar é este? Fui batizada no encontro das águas para, enfim, me encontrar. Negro e Solimões pariram uma sereia nacional. História que só a força do rio e destes povos nunca reconhecidos compreendem bem.

12º campeonato · Morte

Preto no Branco

​A lajota não conteve o calor. Teu eu fez-se outros corpos em mim, e hoje circulamos pradarias. Na jazida, cravos pretos cercam o ipê branco. Ajoelhados ante o mistério do sétimo dia, seguimos revivendo-o.

12º campeonato · Calo

Cri-cri

​— Com o quê você já trabalhou?
Ele mostra as mãos. Senhorzinho se cala. Empossa-o na nova enxada. A carteira de trabalho reina entre os grilos.

12º campeonato · Chupeta

Chupeta de Açúcar

​Na noite, Gertrudes se concentra no ponto. Liberta o bicho, dispara e arremessa a tábua de doces pela fresta. O marido recolhe e vende o rastro. Nina grita no fim:
— Monga, minha zanela caiu por culpa sua!

12º campeonato · Bandeja

Bicho-da-seda

​Na bandeja vazia de carne, sobra o sudário materno. Ela tece o avesso da ausência puxando fio a fio o pedaço da sombra.

12º campeonato · Aurora

Aurora Livre

Os seios o seguraram como filho antes que o mundo o derrubasse. O sangue dele era dela — simbiose do meio-dia. Derrubaram os troncos, restou o papel carta. Um segundo sol amanheceu na carne. Ninguém perguntou o nome das cinzas.

12º campeonato · Proparoxítona

Santuário de Bolso

​A única música que conheço toca uma matemática proparoxítona. Podia pedir silêncio, mas ela fala comigo. Escuto, calo, ressoa sozinha. Espero apenas o ouvido em que nosso enlace seja eterno nas pálpebras cerradas na casa de quem se ouve.

12º campeonato · Ilha

TENDA DE ESTRELAS

​Da colisão entre as pernas, conheceu a primeira dor.
O mundo alargou-se: pedaços de si passaram a flutuar.

12º campeonato · Nervo

QUIROMANCIA DO ABISMO

​Ela estudava os vincos da minha mão, buscando exatidão. A tecitura de cada nervo, contudo, era uma bússola cega. Só a parte alta da palma guardava verdade: o amor cortou a última perna do M com uma nitidez que o seu toque receou tocar outra vez.

12º campeonato · Entrega

A ENTREGA DE ROSÁRIO

Um século nas costas e a conta não fecha. Os seus se vão antes dela. De tanta conta, as contas aprenderam a rezar. Os joelhos pedem descanso, mas ela continua diante do altar. Arrasta a trança branca, aceita: o peso da finitude não cabe na conta de suas mãos.

12º campeonato · Cãibra

COMPLEXO DE LAGARTIXA

​Eu fingia entender só pra você ficar. Por mais que eu urrasse, tu querias usar telepatia. No dia em que falamos a mesma língua, exigias que eu voltasse com a cabeça esticada cheia de cãibra ensaiada: sim, senhor; não, senhor...

12º campeonato · Lago

MEDULA

​À margem do lago, o horizonte afasta-se em linhas mudas.
Em segredo, contemplo o organismo paralítico curar-se sob a água.

12º campeonato · Virgem

Ex-virgem

​Uma perna foi depois da outra; ele correu, não mais voltou.

12º campeonato · Cesto

O VEGETAL

Por entre as grades, via-se seu corpo estirado. Pedacinhos de cabelo para fora. Quando o sacudíamos, mexia. Senhor Batata? Ele atendia. Aos poucos, o tubérculo invadiu o juízo. Nos meses finais, germinava folhas no cesto de mola da sala de estar.

11º campeonato 32

11º campeonato · Diálogo

ANESTESIA

A barriga chorava fome. Ouviu o de costume:
— Dorme, que passa.

11º campeonato · Diálogo

GEOMETRIA DOS RESÍDUOS

Julgaram seu diálogo com o asfalto como surto. O destino era o CAPS, até que um olhar atento notou: era a prova de um teorema riscado entre dejetos e xorume. Na manhã seguinte, a sirene não pedia internação, mas licença. O asfalto ficou pequeno; Harvard o queria inteiro.
(Jessika Gabriela)

11º campeonato · Diálogo

Dismorfia

Vitrines, janelas, metais, retrovisores. O mundo virou um polígono de espelhos e ela, sua devota. Parava, media-se, interrogava o vidro:
— Espelho, espelho meu, qual manequim é mais belo do que eu?

11º campeonato · Fotografia

O Banho Químico

Meus olhos captaram a cena, mas o cérebro processou apenas a dúvida: — traiu? No vácuo do laboratório, a imagem emergiu do banho químico. O papel, ainda úmido, testemunhou: — este é o dia que muda a sua vida.

11º campeonato · Fotografia

PAPARAZZI Nº 3

Três segundos de flash, trinta e três de vertigem. O clique que correu o mundo parou o meu relógio por trinta e três anos.

11º campeonato · Fotografia

A Imagem

A foto gasta bebe o sal; no altar, o dízimo é a lágrima; a fumaça da vela, a redenção.
Ela vê a entrega; você, o medo.
Não te falta fé; falta-te... fôlego. Nasceste humano.

11º campeonato · Bolso

Simulacro

​Sacou o simulacro imitando o falcão que o conduzia. Ao assumir o reinado, inseguro, cerrou os olhos: — Pow!
O pequeno cai. Aperta o bolso da farda que não deveria mudar de cor.

11º campeonato · Bolso

Doce Querubim

​— Paizinho, quando o Natal vai caber no nosso bolso?
Badalaram os sinos da humanidade descendo dos céus.
— Eu também já fui criança um dia — suspirou, antes de revoar.
— Dorme, filho. Dezembro ainda está longe.

11º campeonato · Bolso

Remendo

​Costurava à mão os próprios bolsos. Tinha pavor de que o que restou da dignidade escorresse.

11º campeonato · Banda

LARANJAL

​Naquele laranjal, todos fediam. Mas só um guardou a banda — aquela que perfumou meu coração.

11º campeonato · Banda

CAOLHO NO ENEM

​A lente saltou dos óculos sobre o fiscal. Não derramei uma lágrima: se a vaga for minha, eu enxergo ela até de banda.

11º campeonato · Banda

ESPERANÇA FUGAZ

​Naquela banda do horizonte, o sol dedilha a primeira nota esverdeada por entre os destroços:
— Você me ouve?
— Es/tou/ aaa/quiii(...)

11º campeonato · Ficção

Álbum de Família

​Vinte anos acorrentada. Pariu o primeiro, o segundo, o terceiro. Quando arrombaram o cativeiro, a luz do sol pareceu-lhe mentira. A verdade morava na alcova, onde o pai dos seus filhos era também o seu; uma ficção incompreensível.

11º campeonato · Ficção

SESSÃO 3D

​A mão dele atravessou a luz. A do monstro, não.

11º campeonato · Ficção

Um Dia em Marte

​Ninguém escrevia a lápis. O professor, um holograma. Na cadeira de História da Civilização Perdida, o filme sobre a Terra era obrigatório: alunos obesos riam das árvores expostas, enquanto ajustavam o oxigênio intravenoso.

11º campeonato · Cobre

MADALENA

​O cobre vibra na sirene: evacuar! A granada estilhaça o que era vivo. Desesperadas, arrancam as burcas para dar, àqueles que o metal calou, a última coberta.

11º campeonato · Cobre

VERNIZ

​Em nome dos bons costumes, fundiu o amor em cobre e poliu a mentira até que parecesse aliança.

11º campeonato · Cobre

NORMA CULTA

​— Cobre a boca, senão entra mosca!
​Ou seria se não? Entre a gramática e o perigo, ela se lascou no meio-termo. Enquanto revisava a sintaxe, o moscaral já lhe devorava o sujeito.

11º campeonato · Melancia

Julgavam-na devastada. Até as primeiras abelhas colonizarem o vazio. Cresceram os frutos, as pessoas, as casas de barro. Depois a terra vincou ramas de melancias em que se ajoelhavam para o terço da graça. Lá revelou-se o nome do milagre, batizaram-lhe: Sertão.

11º campeonato · Melancia

O VENENO DO CHICLETE

​Sofria de insônia crônica. Esperava que ela caísse no sono para colher seu hálito. O odor de chiclete de melancia soprava a resposta que o coração recusava ouvir.

11º campeonato · Melancia

PONTO DE SOLTURA

​Admirava as frutas bordadas, recordando-as algemadas, presas àquele que a tomou como recompensa. Finalmente, a agulha matou o parasita. Sua vida agora tem um ateliê e gosto fresco de melancia.

11º campeonato · Ano

TATUAGEM

​No baú, a mecha. As décadas não passaram. Joguei a caixa, ficou a tatuagem. Eu vejo você.

11º campeonato · Ano

O BOLO DA MEDUSA

​Passou a trocar os dígitos pela interrogação. Pedia diante do chantilly que o pavio conservasse a chama. O fogo tremeu. A mesa cheia de crianças disputava o primeiro sopro.

11º campeonato · Ano

SOL DA MEIA-NOITE

​Comemoramos a virada sob o sol, ele não se põe há seis meses. Lá fora ecoa o som cravado em oitavas de Dó menor da ursa que, em silêncio, recorda a época em que via o seu amigo. O gelo.

11º campeonato · Toa

Deriva e Toa

​Desgarrou-se da família cedo, carregando a lembrança do chamado da luz. A bússola do seu coração animal sabia sobre o retorno. Entre a marolinha e o maremoto, a deriva: cada tartaruga reconhece o peso da sua toa.

11º campeonato · Toa

A sombra do cordel

​Encostava na mangueira para aliviar a dor. Ali, lia em voz alta os cordéis que fizera à toa. Naquela cidade de analfabetos funcionais, bastava-lhe uma sombra confortável, nunca estivera sozinho.

11º campeonato · Umbigo

fez UM túnel BIfásico no eGO do corpo.

11º campeonato · Umbigo

COF, COF!
​Rompeu o cordão umbilical do concreto e alçou voo.
No topo, a atmosfera era um caldo cinza.
Cof, cof!
A metamorfose não veio com cores, mas com fuligem.
Quem foi o arquiteto dessa asfixia, tosse, tosse?

11º campeonato · Umbigo

​ANEL UMBILICAL

​A falta do anel dissipou a expectativa. Restou aquela cicatriz que implora para se fechar. Mesmo infeccionada, aborta na esquina o cordão e o aro. A terra acalma: — Próxima.

11º campeonato · Moeda

O SILÊNCIO TEM GOSTO DE COBRE

​A fome dos preços devorou o porquinho. Do arremesso contra a parede restaram estilhaços e um silêncio metálico no chão. Ali, entre o pó e o cobre, ele percebeu: o futuro não cabe mais num amealheiro.

11º campeonato · Moeda

SIAMESA

​Toda noite, seu corpo era uma troca feita para amortizar a dívida eterna jurada à casa.

11º campeonato · Moeda

​A CARA DO COSMOS

​Alinhava o círculo ao céu para a estrela caber no metal. Lá de cima, ao vê-la, tateou a moeda no bolso: o infinito não cabe em dois lados.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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