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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@marciopaladino27

23 microcontos no 11º campeonato.

11º campeonato · Diálogo

— Precisamos conversar — disse ela.
Ele assentiu, aliviado: finalmente ouviria a voz da esposa.
Fazia três anos que o espírito dela só aparecia para escrever bilhetes.

11º campeonato · Diálogo

— Você me ama? — perguntou.
— Amo — respondeu ele.
Mas, como sempre, falavam em idiomas diferentes:
ela escutava promessas, ele dizia apenas medo de ficar sozinho.

11º campeonato · Diálogo

— Eu não matei ninguém.
— Então quem fez isso? — perguntou o detetive.
O suspeito apontou para o gravador sobre a mesa:
— Ele. Foi o único que me ouviu gritar.

11º campeonato · Fotografia

Quando ampliou a foto antiga, percebeu algo estranho: todos sorriam para a câmera — menos ele.
No lugar onde deveria estar, havia apenas uma cadeira vazia.
Foi então que entendeu por que ninguém nunca o reconhecia nas reuniões.

11º campeonato · Fotografia

Ela dizia que a câmera não capturava rostos, mas despedidas.
Por isso fotografava sempre ao entardecer:
a luz era a única coisa que também parecia saber ir embora devagar.

11º campeonato · Fotografia

Na cena do crime, o perito encontrou apenas uma foto.
Nela, a vítima sorria, abraçada ao assassino —
que ainda não sabia que já estava identificado.

11º campeonato · Bolso

Ele enfiou a mão no bolso à procura de coragem. Encontrou um botão solto, dois trocados e o bilhete dela: “Volto já.” Faz quinze anos que ele apalpa o mesmo tecido, como se a esperança tivesse forro.

11º campeonato · Bolso

No julgamento, jurou estar desarmado. Esqueceram de revistar o bolso do paletó. De lá não saiu faca nem revólver — saiu a foto da vítima sorrindo, dobrada exatamente sobre o coração.

11º campeonato · Bolso

A avó costurava bolsos secretos nos vestidos. “Para guardar o que não cabe na mão”, dizia. Quando morreu, acharam neles sementes, santinhos e um mapa desenhado a lápis — o caminho de volta para casa.

11º campeonato · Banda

Quando o último integrante morreu, a banda continuou ensaiando no porão. Os vizinhos reclamavam do som, mas não era o volume que assustava — era o silêncio entre uma música e outra, quando dava para ouvir cinco cadeiras rangendo sozinhas.

11º campeonato · Banda

No show de despedida, tocaram a canção favorita dos fãs. No refrão, a plateia cantou tão alto que ninguém percebeu: o vocalista já não segurava o microfone havia minutos.

11º campeonato · Banda

O maestro levantou a batuta, e a banda inteira prendeu a respiração. Não por disciplina — mas porque sabiam que, se tocassem errado outra vez, ele voltaria a escolher quem não sairia vivo do ensaio.

11º campeonato · Cobre

O fio de cobre atravessava a casa como uma veia exposta. Quando a energia caiu, foi ele quem queimou primeiro. O eletricista disse que era sobrecarga; ela sabia que era excesso de silêncio acumulado.

11º campeonato · Cobre

Enterraram a moeda de cobre no quintal para dar sorte. Anos depois, desenterraram fios, canos, telhados arrancados. Descobriram tarde demais: o metal atrai não só riqueza, mas também quem aprende a farejar promessa.

11º campeonato · Cobre

No laboratório, disseram que o sangue tinha gosto metálico. Ele sorriu: desde pequeno mastigava moedas de cobre para aprender o preço das coisas. Cresceu achando que valor e ferida eram a mesma palavra.

11º campeonato · Melancia

Na feira, a menina abraçou a melancia como quem salva o mundo. Quando a abriu, não havia sementes, só espelhos. Sorriu mesmo assim: descobriu que crescer é aprender a devorar o que nos reflete.

11º campeonato · Melancia

Disseram que ela comia melancias como quem resolve problemas. Magali sabia: cada fatia era um jeito doce de calar a solidão do bairro inteiro.

11º campeonato · Toa

Esperou por ela à toa, disseram. Mas quem passa horas olhando o mar aprende: não é perda de tempo quando a gente espera a própria coragem chegar na próxima onda.

11º campeonato · Toa

Chamavam-no de poeta à toa. Só porque falava com árvores e escutava telhados. Um dia a cidade caiu em silêncio — e foi ele quem traduziu o vento.

11º campeonato · Toa

Pediu desculpas à toa, segundo os outros. Ele sabia que não era culpa dele. Mas algumas culpas precisam de abrigo, e o peito dele sempre foi casa para tempestades alheias.

11º campeonato · Moeda

Ele lançou a moeda para decidir se partia ou ficava. Caiu em pé, girando sem parar sobre a mesa. Desde então, vive assim: suspenso entre dois futuros que nunca chegam.

11º campeonato · Moeda

O mendigo recusou a moeda. Disse que preferia palavras. O homem insistiu e a deixou no chão. Horas depois voltou: ela ainda estava lá — mas agora trazia, gravado, o rosto do mendigo.

11º campeonato · Moeda

No museu do futuro, havia uma única peça em exposição: uma moeda antiga. A placa explicava: “Objeto usado quando pessoas ainda acreditavam que escolhas podiam ser compradas.”

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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