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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

@oilage

21 microcontos no 5º campeonato.

5º campeonato · Cavalo

(CAVALO DADO)

“Pode ficar com ele!”, disse o cowboy ao sair correndo. Olhei a sela, inteira, e tinha até ferraduras. Por fim, abri sua boca. Lá dentro, o fim do universo.

5º campeonato · Bolinha

(DIETA REDONDA)

Quando criança, comia bolinhas de gude. Na adolescência, isso evoluiu para bolas de bilhar. Hoje, fui banido do ginásio de futsal, e a partida foi adiada.

5º campeonato · Bolinha

(SACRIFÍCIO)

“Vai custar o olho da cara”, falou o lojista. Arranquei-o e joguei no jarro transparente. Ao se desintegrar, o mapa apareceu. Agora sei onde encontrá-lo.

5º campeonato · Palhaço

(BATI)

Baixei minha sequência infame, usando a carta do palhaço no lugar do dois de copas. Todos me olharam com confusão. Perguntei se por acaso não era pontinho e sim pife. “Cícero, estamos jogando Uno.”

5º campeonato · Palhaço

(WHAT'S THE DEAL WITH THE UNIVERSE?)

Descobri o sentido da vida e a origem do universo. Contei aos meus colegas, todos riram. Família, amigos, todos acharam hilário. Decidi levar minha descoberta ao stand-up. Hoje, sou mais bem pago do que como pesquisador.

5º campeonato · Marca

(MARCA DIABO)

Comprei um salgadinho sabor picante no mercado. Não era da marca que costumava comprar, mas a fome falou mais alto. Logo senti o fogo subir em minha boca, seguido pelo diabo em pessoa.

5º campeonato · Marca

(VISÃO DO INFERNO)

Quando ela nasceu, havia uma marca vermelha em seu olho. Os médicos falaram que iria sumir logo, mas só cresceu. Hoje, preenche o olho inteiro, e enxergo em sua superfície reflexos hediondos.

5º campeonato · Baralho

(NO ANTIQUÁRIO DO SEU RAIMUNDO)

Abri a caixa e encontrei um baralho espanhol. Cada carta era ilustrada por um personagem curioso. Uma feiticeira. Um bobo da corte. Um pintor. Uma escritora. Um punk. Uma lojista. A próxima carta estava em branco. Senti um calor forte por todo meu corpo, que depois despencou com leveza. Mais uma carta para o baralho.

5º campeonato · Cebola

(OUVI ERRADO)

Me desafiam a comer um quilo de cebolas. Corro para a cozinha, enquanto gritam alguma coisa, mas minha audição não é muito boa. Na geladeira, encontro um pacote com a quantidade certa. Volto para a sala e mando uma atrás da outra. Quando termino, me olham incrédulos. Minha irmã deixa cair o pacote com cenouras.

5º campeonato · Cebola

(O CEBOLINHA)

Meu teto tem estrelas fluorescentes, mas uma destoa das outras: o Cebolinha. O personagem é o que restou de um kit, e agora terá que sair. Subo a escada e o removo com minha espátula roxa. Atrás dele, surge um tentáculo. Ele desliza lentamente, deixando gosma no teto. Curioso, o cutuco com a espátula. O tentáculo se enrola nela, e a usa para bater na minha cara.

5º campeonato · Nota

(A MOSCA)

Acordei com um inseto irritante pousando na minha cara. Com destreza, o transformei em gosma com minhas duas mãos. Levantei e fui até a cozinha, mas não encontrei meu marido. Na mesa, um recado escrito com café em um guardanapo: “socorro virei uma mosca”.

5º campeonato · Nota

(PÔR DO SOL)

Aqui nessa sala canta o Gilmar. Conhecido por nunca desafinar, emplacou vários sucessos uma década atrás. Mas um dia entrou nessa cabine pra gravar seu próximo álbum e ficou sabendo pelo produtor que sua mulher havia descoberto tudo e fugido com sua filha. No fim do segundo refrão, desafinou, e até hoje continua a cantar a mesma nota desafinada.

5º campeonato · Desejo

(SABEDORIA)

Ao gênio da lâmpada, pedi uma máquina com toda a sabedoria do mundo. Perguntei a ela os segredos das nações, as fraquezas de meus inimigos e como dominar o mundo. A máquina prontamente imprimiu um bilhete, dizendo: “se lhe contasse, não seria muito sábia”.

5º campeonato · Desejo

(ANNO DOMINI)

“Nasci na época errada!”, pensava o adolescente, “como queria viver nos anos 80!”. Dormiu triste, banhado em lágrimas. Acordou espantado, em um beco estranho, com pessoas ao seu redor o encarando e falando uma língua parecida com o italiano. Ao sair do beco, chega a tempo para a inauguração do coliseu.

5º campeonato · Ninguém

(Hora da Chamada)

A nova professora entra na turma do sexto ano. Se apresenta, explica sua didática e regras. Começa a fazer a chamada. “Ana, Bernardo, Bruna”. Entusiasmadas, vão erguendo o braço. Mas a professora percebe um espaço em branco na chamada. “Ninguém!”, brinca. Um movimento numa classe vazia chama a atenção de todos. Pouco depois, a cadeira voa e quebra a janela.

5º campeonato · Vazio

(RECADO DA NATUREZA)

Caio caminhava na floresta e encontrou um buraco. Disse a si mesmo “igual a meu coração… vazio.” Quase que imediatamente, um coelho pula do buraco.

5º campeonato · Estrela

(STELLA APPROPINQUANS)

Pedro e Eduarda, largados no quintal de casa, olham para o céu noturno. “O universo está sempre expandindo, e alguns cientistas dizem que eventualmente tudo estará tão distante que não será mais possível ver estrelas.” “Acho que o oposto é verdade, Pedro. Algumas estão ficando até mais brilhantes.” Pedro arregala os olhos. Um meteoro atinge seu telhado.

5º campeonato · Estrela

(SEU FIM)

Iluminado apenas pelos astros, Roger procura um lugar afastado. Seu corpo está pesado. Eventualmente, encontra um tronco caído na entrada de um matagal, e senta nele para descansar. Depois, pega uma pá e começa a cavar. Por fim, pega seu corpo e joga dentro do buraco, te enterrando junto com as evidências de seu assassinato.

5º campeonato · Pétala

(MARGARIDA AVERROÍSTA)

Certo dia, o vaso de margaridas criou consciência-de-si. Ficou confuso com a terminologia hegeliana de sua existência, e decidiu estudar os chineses e gregos para ter um melhor embasamento teórico. Prosseguiu com os árabes, se tornando averroísta e compreendendo sua dualidade. Ainda assim, não entendeu Hegel. Suas pétalas caíram de tanto pensar.

5º campeonato · Corpo

(VAPORIZADA)

Lourdes foi a primeira a entrar em contato com os robôs. Disseram ser conectados mentalmente a humanos do planeta Terra, e que chegaram aqui usando teletransporte. Ela lhes disse que isso era impossível, mas eles insistiram. Foi até a máquina e apertou o botão. Instantaneamente evaporou. Na Terra, um alienigena idêntico se materializa. Não era Lourdes.

5º campeonato · Corpo

(REVOLUÇÃO)

Seu corpo moribundo se recusava a morrer. Tentamos alvejá-lo, ateamos fogo e jogamos ácido. Ele continuava a sorrir. Chamamos um perito nas artes obscuras. Deixou-o aterrorizado. Por fim, minha curiosidade me venceu. “O que o mantém vivo?” Novamente, o moribundo sorriu. “Vocês não podem matar uma ideia.”

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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