11º campeonato · Diálogo
Diálogo
E Deus disse:
— Faça-se a luz.
— Faça-se o firmamento.
— Faça-se o mar e a terra.
— Faça-se a vegetação
— Façam-se as estrelas.
— Façam-se os animais.
E a serpente resmungou:
— Até quando esse cara vai ficar falando sozinho?.
11º campeonato · Diálogo
DIÁLOGO
— Cala a boca, vagabunda.
— ...
— Não me provoque.
— ...
— Está escutando?
11º campeonato · Diálogo
Quando os extraterrestres chegaram, ninguém conseguiu se comunicar. Eram seres de luz, imateriais. Foram tentadas línguas vivas e mortas, linguagem de sinais e toques, em vão. Até que Pedrinho, um garoto autista, conseguiu iniciar o um diálogo — usou uma lanterna.
11º campeonato · Fotografia
FOTOGRAFIA
Ele entregou o dinheiro sem resistência. Mas sua mão não soltou a fotografia amarelada dela. Um estampido. A foto escorreu pela sarjeta.
11º campeonato · Fotografia
Fotografia
No porta-retratos sua última lembrança. Cada dia mais amarelada. Cada dia mais distante. Na mudança, caiu do caminhão. Esquentou a noite fria do sem-teto.
11º campeonato · Bolso
SÓ UMA FRUTA
Acordava de madrugada. Eram sete bocas para alimentar. À noite, exausto, sempre trazia uma fruta para os filhos, que vasculhavam seu bolso à procura de mais. Abraçava a todos e os acariciava com as mãos calejadas.
11º campeonato · Banda
No coreto da praça, a banda se esmerava com músicas inesquecíveis. O povo dançava. Menos Josefina, que assistia à alegria, sem participar. A paixão pelo músico, que um dia lhe roubou um beijo, a marcou. Ele disse “você ainda é criança, um dia voltarei para você”. Há sessenta anos ela espera.
11º campeonato · Ficção
REALIDADE
O Velho sonhava com um mundo perfeito para seus netos. Para ele não, já estava no fim.
— Um mundo com fadas e duendes?
— E dragões e centauros, tudo que é real deverá estar nele, afirmou o velho.
— Sei não, isso me parece muita fantasia, falou o jovem dragão, cuspindo uma pequena labareda.
11º campeonato · Ficção
SONHOS
— Conte mais sobre os rios.
O contador olhou as crianças sujas, sentadas no chão ressequido e continuou.
— Eram estradas de água, iam até o mar.
— O que é mar?
— Psiu, fez outro, — deixe ele falar.
— E tinha grama e árvores. Embaixo delas era úmido.
As crianças fechavam os olhos e sonhavam.
11º campeonato · Ficção
Milhares de anos se passaram. Tudo é transgênico. Todos os trevos têm quatro folhas. Brincando no jardim, o garotinho correu para a androide gritando: — Mamãe, mamãe, achei um trevo de três folhas.
11º campeonato · Cobre
TACHOS E CALDEIRÕES A avó fervia mandrágora e acônito no caldeirão. A neta usa o tacho de cobre com frutas e açúcar. A mandrágora permanece guardada.
11º campeonato · Cobre
Encontrou uma lâmpada de cobre enterrada na areia. Ao limpa-la, saiu uma fumaça azulada, seguida de uma fuligem cinzenta, que se espalhou por sua casa. Em seguida a lâmpada cuspiu uma vassoura.
11º campeonato · Melancia
MEDO
Encostado em uma árvore, a 30 metros de distância, o filho de Guilherme Tell suava.
— Papai, tem que ser maçã? Gosto muito mais de melancia.
11º campeonato · Ano
IMORTALIDADE
Os anos passam e o tempo apaga pegadas, retratos, vozes. Mas o que foi escrito... permanece.
Escrever é sussurrar à eternidade: “Não me esqueça.”
E às vezes, ela ouve.
11º campeonato · Ano
SOBRE TEMPO E TÉDIO
Setenta e sete anos é o tempo necessário para reencarnar.
Eu voltei depois de sete semanas. O pós-morte é um tédio.
Nem Ele aguentou.
11º campeonato · Toa
RESSACA
Sentado na praia à tarde, olhando o mar. O mar me olhando.
— Faz alguma coisa, bicho à toa!
11º campeonato · Umbigo
AZULEJOS
Sentou-se nu no banheiro, olhando fascinado para seu umbigo. Viu mais do que queria: seus medos e suas vergonhas. Nunca mais saiu.
11º campeonato · Moeda
UMA MOEDA
Encontrei-o vagando. Falou de seus carros e da conta bancária. Esqueceu-se de guardar uma moeda para o barqueiro.
11º campeonato · Moeda
NA CALÇADA
A mãe pedia uma moeda. No seu colo, a criança sugava a teta vazia. Ninguém as via. No dia seguinte, apenas a mãe.