11º campeonato · Diálogo
INCAPACIDADE
Eram feitos um para o outro.
Ela muda. Ele cego.
Ela muda. Ele surdo.
Cansada de mudar sem ser vista ou ouvida, ela fez um enorme discurso de despedida.
Ele mudo.
11º campeonato · Diálogo
INTERVALO
Ele esbravejava, ela gritava. Xingamentos e ameaças. No final das contas, só havia razão nos silêncios entrecortados.
11º campeonato · Diálogo
INSUSTENTÁVEL
Naqueles tempos, cada um carregava nas costas suas próprias verdades, num emaranhado tão denso que pendiam sempre para algum lado. Mal se aproximavam dos outros, por receio de enroscar-se nas verdades alheias.
11º campeonato · Fotografia
REVELAÇÃO
Vovó dizia: essa máquina rouba almas. Mas não pensamos que também devolvia: fotografei-a no sofá da sala. Vovô apareceu ao lado, sorrindo.
11º campeonato · Bolso
POLIA
As mãos no bolso eram um cordão tenso que sustentava as costas arqueadas e o corpo surrado. Havia suportado muitas coisas, perdido tantas outras. Ali, ele segurava a si mesmo. Agarrando-se à realidade, tentava não se perder novamente.
11º campeonato · Bolso
REVISTA
— Que é que tá carregando aí?
— Só um isqueiro.
— Vai fumar o quê?
— Não fumo nada não, senhor. Vou só no cemitério acender vela pros parentes.
— E cadê as velas?
A mentira chegou ao limite. Percebeu que não tinha mais saída, já estava no bolso do guarda.
11º campeonato · Bolso
PESO
No museu, ela se perguntou para que serviam os buracos nas roupas.
Um holograma explicou: carregar objetos para abrir portas, transações comerciais, comunicação e memórias.
Ela franziu o cenho. Aquilo devia pesar. Seu chip resolvia tudo sozinho.
Saiu dali carregando uma angústia.
11º campeonato · Banda
A ÚLTIMA MARCHA
Ordenaram que a banda tocasse para levantar o moral. Tocaram até os dedos congelarem, até as trompas emperrarem, a pele dos tambores rachar e os pratos quebrarem como gelo.
Nas noites de inverno, ainda ecoa a banda do grand armée, guiando os espíritos dos soldados desconhecidos.
11º campeonato · Banda
A BANDA QUE NÃO PASSA
Foram acaloradas as discussões pela escolha do maestro. Apesar disso, mantiveram os mesmos instrumentistas de sempre: desafinados, sem sincronia ou ritmo.
No final, não importa qual o maestro: é assim que essa banda toca. E o ingresso está cada vez mais caro!
11º campeonato · Ficção
Quase mata nois de ansiedade! 😂
11º campeonato · Ficção
PERSONAGEM
Escreveu grandes dramas, vidas sofridas, verdades profundas. Ninguém leu.
Depois do acidente, ganhou milhões de seguidores. Perguntavam da perna, da dor, da cicatriz. Dos livros, nunca.
11º campeonato · Ficção
ENREDOS
Aquela pequena mentira cresceu e virou conto de fadas. Por algum tempo, era tudo romance. Mas a situação foi ficando crônica. Quando a verdade apareceu, tudo se encerrou em drama.
11º campeonato · Cobre
CARREGADOS
Rodaram a cidade animados, bebendo e roubando fiação de casas em construção. A cada butim, ficavam mais empolgados. Até o último. Ficaram eletrizados.
11º campeonato · Cobre
NÁUSEAS
A grande estátua de cobre, cor de terra banhada de sangue, representava a liberdade.
Com o passar das décadas, exposta ao clima e às intempéries, ficou verde. Enjoada.
11º campeonato · Cobre
O furacão passou. Da casa, restou apenas o esqueleto de cobre, canos frios entranhados no chão. Remexeram os escombros. Não acharam ninguém.
Até que ouviram o encanamento tilintar. O porão ainda guardava vida.
11º campeonato · Melancia
IMPROVISO
Já era final de outubro, não havia abóboras boas. Quando perguntaram da melancia entalhada, disse que dava uma cara mais raiz.
11º campeonato · Melancia
MELANCIAS
— São verdes por fora, mas vermelhos por dentro — o general explicava aos soldados.
Ensinava-os a descascar e abrir as frutas podres, que contaminariam todo o cesto.
Muito eficientes, os aprendizes não erravam uma: todas vertiam sumo vermelho.
11º campeonato · Ano
INFLAÇÃO
Nasceu devendo trinta anos. Quando estava prestes a quitar, já devia mais cinco, com juros.
O filho nasceu devendo quarenta.
O neto talvez retomasse o ciclo antigo: de nascer já devendo a vida toda.
11º campeonato · Ano
RITOS
A cada ano, apagava uma vela.
Desta vez, porém, seria velado.
11º campeonato · Ano
TROLL
Estava descobrindo as novas tecnologias. A onda do momento era dizer o ano em que nasceu sem dizer o ano em que nasceu.
Diante da tela, sem refletir, ele escreveu: "Marduk partiu ao meio Tiamat".
Alguém comentou que era um troll querendo atenção.
Ele riu; não havia mais desses há milênios.
11º campeonato · Toa
REVELAÇÃO
Diziam que Dona Celeste vivia à toa. Fazia pouco, comia pouco, bebia pouco.
Quando morreu, e cessaram os pagamentos da aposentadoria, foi que notaram que era ela quem carregava a família à reboque.
11º campeonato · Toa
ARTE
No oitavo dia, distraído, meio à toa, criou o dente-de-leão.
Até pensou em alterar alguns detalhes, mas, depois que assoprou, já não tinha como voltar atrás.
11º campeonato · Umbigo
CRIATURA
Olhou por tanto tempo para o próprio umbigo que, um dia, lá de dentro, algo olhou de volta. Olhos famintos.
11º campeonato · Umbigo
TOQUE
A mão curiosa deslizou por baixo do vestido. Pele quente, lisa.
Parou. Apalpou. Passou a mão de novo.
— Esperava outra coisa? — ela perguntou.
Ele seguiu em silêncio.
— Eu ainda posso atender os seus desejos?
Ele não respondeu. Tudo que ele queria era calor humano; e ela não tinha umbigo.
11º campeonato · Moeda
MARGEM
Acostumado a ignorar os pedintes e desesperados, negou moedas para Caronte. O barco partiu sem ele.
Na margem desolada, passará a eternidade pedindo ajuda aos passantes.
11º campeonato · Moeda
A QUEDA
O povo ofereceu ao rei uma chance. Cara, perdoado. Coroa, guilhotina.
Ele sorriu, desacreditado; e lançou a moeda ao ar.
O metal caiu num instante. Após rolar no chão, o rosto ficou virado para cima. Ainda sorria.