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Microconto

Campeonatos de microcontos · Autores

Rodrigo Ortiz Vinholo

@rodrigoortiz · 53 microcontos nos campeonatos 12º, 11º e 9º.

12º campeonato 14

12º campeonato · Nacional

A CARACTERÍSTICA NACIONAL

A população revoltada protestava em frente à multinacional acusada de manter trabalhadores em condições análogas à escravidão. A polícia chegou, surrou os presentes, e as (minúsculas) notícias, mais tarde, se confundiam com outras parecidas e acabavam ignoradas.

12º campeonato · Morte

O QUE CONTINUA

No velório, compreendeu por que os idosos tantas vezes eram curvados: encarando a segunda grande perda de sua vida, notou que ainda carregava o peso continuado da primeira, e que a carga continuaria aumentando até o seu fim.

12º campeonato · Calo

INFELIZ PADRÃO

A explicação da mãe era verdadeira: conforme a vida a deixava mais calejada, se tornava mais resistente à decepção e ao sofrimento. Ainda assim, sempre restava a tristeza da consciência da resignação.

12º campeonato · Chupeta

PRIMEIRA DECEPÇÃO AMOROSA

Ele sempre se lembrava: ela agradeceu o pirulito em forma de chupeta, mas foi-se embora e o deixou chupando o dedo.

12º campeonato · Bandeja

NO MUSEU DE ARTE SACRA

— Acho essa minha representação de gosto duvidoso — disse o quadro de Santa Luzia, com os próprios olhos em uma bandeja.
De outro quadro, em outra bandeja, restou à cabeça de São João Batista apenas rir.

12º campeonato · Aurora

O POETA ESTÁ MORTO

Naquela manhã de barbaridade, o galo não cantou, os moinhos de vento estavam destruídos, e a roda da história parecia travada. De algum modo, o céu escuro cobria o sol, prenúncio da aurora de tempos sombrios.

12º campeonato · Proparoxítona

PET SHOP

Eu estava atrás do balcão quando o homem entrou na loja.
— Com licença, vocês vendem proparoxítonas?
— O senhor quer dizer "calopsitas"? Temos, sim!
— Eu disse "proparoxítonas", não "paroxítonas" — esbravejou ele, e foi embora.
Até agora estou tentando entender o que ele queria dizer.

12º campeonato · Ilha

AQUI HÁ MONSTROS

Nos mapas, os antigos decidiram representar poeticamente as águas desconhecidas com imagens de serpentes marinhas imensas. Os descendentes, ignorando as motivações originais, passaram a acreditar na ameaça e por incontáveis gerações se mantiveram isolados na ilha.

12º campeonato · Nervo

DOR FANTASMA

Os nervos não sabiam que algo não estava mais lá.

12º campeonato · Entrega

DESTINATÁRIO AUSENTE

Tão acostumado a sempre receber pacotes, só entendeu por que haviam parado de procurá-lo quando vieram buscar seu corpo deitado no chão da sala.

12º campeonato · Cãibra

MÚSCULO CARDÍACO

Não era ataque, nem parada, mas doía profunda e insistentemente: a dor da mágoa parecia cãibra no coração.

12º campeonato · Lago

O QUE VOLTA

Ninguém soube do assassinato. Ninguém soube do corpo no lago. Duas décadas se passaram, e um esqueleto emergiu. As crianças ficaram curiosas, um menino foi investigar e se afogou. O pai, assassino secreto, para sempre acreditou que foi uma vingança que finalmente o alcançou.

12º campeonato · Virgem

CONVERSA DE JOVENS

Enquanto as amigas conversavam animadamente sobre a perda da virgindade, ela jurava a si mesma que nunca faria algo do tipo. "Onde já se viu mudar de signo?!"

12º campeonato · Cesto

DESENCONTRO

Quando voltaram de férias, encontraram na porta da casa um cesto. A data no recado e as moscas no pacote explicavam que, um mês antes, era um filho indesejado.

11º campeonato 33

11º campeonato · Diálogo

Palavra e moda

A blusa conversava com aquela calça, que conversava com aquele chapéu, que conversava com os sapatos. O traje era um diálogo perfeito que falava muito sobre uma pessoa que, por dentro, não tinha nada de especial a dizer.

11º campeonato · Diálogo

Meio-termo

— Acredito que estas pessoas aqui deveriam morrer por conta de como são. — disse o primeiro.
— Acredito que pessoas não deveriam morrer por conta de como são. — disse o segundo.
— Vocês não podem chegar a um meio-termo? Quem sabe apenas algumas pessoas poderiam morrer! — disse o terceiro.

11º campeonato · Diálogo

Mesa de bar

De tanto concordar que todas as vozes mereciam ser ouvidas igualmente, acabou em uma mesa onde todos os outros achavam que deveria morrer.

11º campeonato · Fotografia

OLHAR

O fotógrafo um dia mostrou como era belo o raio de sol que incidia de manhã pela janela do escritório.
O tempo passou, as estações mudaram o sol, depois levaram o fotógrafo.
No ano seguinte, o raio de sol voltou, foi reconhecido. O fotógrafo não estava mais lá, mas seu olhar continuava presente.

11º campeonato · Bolso

O GÊNERO DAS ROUPAS

A calça não tinha bolsos, os shorts não tinham bolsos, os vestidos não tinham bolsos, e por alguma razão queriam convencê-la de que isso fazia sentido porque era mulher.

11º campeonato · Bolso

BURACOS

Encontrou por acaso um buraco no bolso, colocou-o no chão, pulou dentro e nunca mais foi visto.

11º campeonato · Bolso

PREJUÍZO

Todos sofreram com a desgraça, mas a dor no bolso só não era maior do que a dor de quem sequer tinha bolso.

11º campeonato · Bolso

A VIDA TODA CABIA EM UM BOLSO

Tentou se convencer que era de alta densidade, de alta concentração, mas era realmente baixa quantidade.

11º campeonato · Bolso

MÃOS NOS BOLSOS

Mãos nos bolsos não falava com ninguém, nem queria ser visto, nem queria troca, acordo ou negócio. Ninguém o viu quando sumiu, nem o reconheceu quando voltou, tempos depois, porque as mãos agora estavam sobre mesas, sobre costas, apertando outras mãos e apontando para o mundo.

11º campeonato · Banda

A banda de Teseu

Os anos se passavam, e conforme seguiam na ativa, trocaram o guitarrista, depois o baixista, depois o baterista, depois o vocal. Restaram o nome, as músicas e a gravadora da banda antiga. Ninguém sabia com certeza se isso fazia com que realmente fossem eles.

11º campeonato · Banda

Não há banda

Ouvia música de mentira, com compositores e músicos de mentira, feita para um público de mentira, que substituía o espaço do que era de verdade, depois de canibalizá-lo e vestir seu rosto.

11º campeonato · Ficção

DOIS MUNDOS

Havia o mundo, e havia o outro. Em um vivia, no outro, também. O que fazia no primeiro não afetava o segundo, e o que fazia no segundo transformava o primeiro, mesmo que sem contato direto.
Ao fim de cada página, sempre sorria: ainda bem que existia a ficção.

11º campeonato · Ficção

NADA É VERDADEIRO, TUDO É PERMITIDO

Quando entendeu que ninguém jamais veria o mundo por completo, atingiu um tipo de iluminação: seria a história que contava a si mesmo.

11º campeonato · Ficção

F(R)ICÇÃO

— Eu e ela não brigamos. Isso que espalharam por aí é ficção.
— Fricção?
— Ficção. Quero dizer que era de mentirinha.
— Então quer dizer que a fricção foi uma ficção?
Apesar do trocadilho, fazia sentido.

11º campeonato · Cobre

Vida e vida

A condução elétrica da antena de cobre injetou vida no cadáver costurado. O monstro se ergueu, viveu, aprendeu, mas nunca entendeu por que a humanidade desanimada não buscava mais vida com as belezas do cobre e da eletricidade.

11º campeonato · Cobre

A cor do cobre

Não via valor nas tantas medalhas de terceiro lugar. Uma vida inteira de quase-vitórias, de quase-fama, de quase-sucesso. No primeiro ouro, depois de toda alegria, encheu-se de vazio. Viu então o terceiro colocado exultante com e percebeu sua derrota existencial.

11º campeonato · Cobre

Símbolo

“Vá tomar no cobre!”, dizia o químico para seus desafetos.

11º campeonato · Melancia

MELANCIA

Quando Mariazinha explicou para a professora que tinha uma semente crescendo em sua barriga, ela achou melhor envolver a polícia.

11º campeonato · Melancia

MELANCIA NÃO DÁ EM ÁRVORE

Ninguém acreditou que não havia sido uma agressão.

11º campeonato · Melancia

UMA FATIA DE BALÃO

O susto e os pedaços no chão foram tudo que restaram depois da teoria frustrada do menino: não era como a melancia.

11º campeonato · Ano

SABÁTICO

Queria tirar um ano sabático. Não ter responsabilidades, nem preocupações. Quando finalmente conseguiu, se deu conta de que o mundo não tiraria férias com ele.

11º campeonato · Ano

DATA DE NASCIMENTO

— Vô, é verdade que você não sabe direito em que ano nasceu?
— É verdade, naquela época a gente ainda não tinha inventado o calendário.
O menino ficou em dúvida, mas acabou por aceitar. O avô sabia que isso era mais fácil e divertido do que a verdade da pobreza e burocracia.

11º campeonato · Ano

DATA FINAL

Pensou que em 2000 o mundo acabaria. Quando a vida seguiu, mudou a data para 2012. Quando não deu certo, procurou mais anos apocalípticos. O ano de sua morte chegou antes do fim de todo.

11º campeonato · Ano

CORRIDA/OBITUÁRIO

Todos os nomes na lista ficaram para trás conforme o ano passou.

11º campeonato · Toa

CONTRÁRIO

Ficou à toa na vida e ocupado na morte.

11º campeonato · Toa

RITMO

À toa na toada, não tocou o instrumento que esperavam na hora certa.

11º campeonato · Toa

TOA

Passou a vida sendo rebocado, alcançando novos portos e mares sempre ao custo do esforço alheio. Quando se viu só em alto-mar, descobriu que não tinha velas, tampouco combustível. Estava à deriva.

11º campeonato · Umbigo

HUMANIDADE

Comia, cagava e tinha um umbigo igual todo mundo. O resto eram os detalhes da biografia.

11º campeonato · Umbigo

IMBIGO

— Tá errado, não é assim que se fala.
— Mas soa muito melhor, assim.

11º campeonato · Umbigo

NÚCLEO

Achava que tinha o rei na barriga, mas, olhando de perto, carregava só um umbigo sujo.

11º campeonato · Moeda

TAXA

Caronte recusou a travessia: não aceitava Bitcoin.

11º campeonato · Moeda

INJUSTIÇA

Retribuiu na mesma moeda, mas vindo de sua mão julgaram como excesso. O problema, entendeu, não era o pagamento, mas o pagador.

11º campeonato · Moeda

CUNHAGEM

Enterrado com dobrões de ouro sobre os olhos, foi parar no mesmo lugar que o outro com centavos de cobre azinabrado.

9º campeonato 6

9º campeonato · Cobertor

1500

Pedro até que estava indo bem na escola, mas custou para a professora de História fazê-lo entender que não havia um cobertor imenso envolvido no descobrimento do Brasil.

9º campeonato · Confusão

PUBLICAÇÃO

Por uma série de confusões, o trabalho do poeta foi veiculado na revista científica e o do cientista, em uma revista de arte. O primeiro foi criticado por não citar fontes, e o segundo por ser prolixo demais.
Descoberta a bagunça, inverteram os textos... mas o resultado foi o mesmo.

9º campeonato · Olhos

OLHAR

Ficou com medo quando viu algo embaixo da cama o encarando. Temeu que fosse um invasor, ou um monstro, e se preparou para lutar. A verdade, de alguma maneira, foi ainda pior: o par de olhos que estava lá embaixo não faziam parte de um corpo.

9º campeonato · Vaso

AMBIENTAÇÃO

O decorador não sabia o que fazer quando descobriu que os vasos que os clientes queriam para embelezar o apartamento eram os sanguíneos.

9º campeonato · Mentira

FAKE NEWS

Odiava pessoas por coisas que não fizeram, temia ameaças que não existiam, adorava heróis que nada fizeram, e tomava como reais fatos que nunca ocorreram.
Quando a realidade teimava em discordar de tudo que acreditava, dizia que eram mentirosos tentando manipular e distorcer.

9º campeonato · Estudo

HABILITAÇÃO

Foi reprovado no teste para tirar licença poética por ter estudado demais.

Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.

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