4º campeonato · Pico
GERAÇÃO ÔMEGA
Covarde demais para viver e demasiado frouxo para o suicídio, Murilo seguia existindo. Nascera precoce; crescia sem amadurecer. Hoje, aos quarenta, com alma senil e espírito pueril, resmunga na internet frustrações diárias, mesmices ressentidas, anseios parasitárias e toda sorte de projeções doentias... vestia, alienado, uma balaclava niilista. O sentimento de tédio existia, mas a palavra fora abolida. Saldo de hoje: treze curtidas. No onanismo da madrugada ele escalaria o pico daquele abismo.
4º campeonato · Policial
SARGENTO GARCIA
Vinte e nove anos de caserna. Carregado pelo belchioriano bigode, um chefe de guarnição Caxias. Cinquenta e tantos processos administrativos. Dedo encaliçado. Limite pra consignado praticamente estourado. Era todo hierarquia e disciplina. Medalha de honra nunca dantes recebida. Prover e proteger era sua missão; a paternidade sua mais nobre bandeira; as coisas só lhe faziam sentido quando, retornando ao lar, à sua esposa prestava a mais sincera continência.
4º campeonato · Ontem
CONVERSA DE BOTECO
_ O presente nem existe!
_ Pronto, e nesse exato momento é o quê?
_ O exato nunca é exato; já passou.
_ E vivemos em que instante senão o presente?
_ Num constante pretérito imperfeito, ansiando um futuro de presente e se preparando pra possíveis futuros do pretérito.
_ Deu a porra!
_ É, meu amigo. Hoje é um ontem se projetando em amanhãs.
_ Tim-tim!
4º campeonato · Sinais
DESABAFO
_ Não posso desistir da gente. De tudo que passamos juntos. Não vou permitir isso.
_ Pois é, cara. E tem ainda o filho.
_ É! Não vou deixar que me afaste dele por causa de briguinhas bobas. Não é pra isso tudo.
_ Vai ceder de novo?
_ Fazer o quê? Só em pensar em viver longe dela e do garoto sinto tonturas, mal-estar, vontade de vomitar...
_ Sinal que ainda a ama, e muito.
_ Não é sinal, amigo. É um sintoma.
4º campeonato · Alunos
AULA INTERROMPIDA
Vinham desordenados de todos os lados dos corredores do colégio os alunos, professores e demais funcionários. Carniceiros covardes, com uivos revolucionários atacavam as indefesas presas. Bam!, ouvia-se daqui. Bang! Boom!, sentia dacolá. Uns iam caindo, outros pisoteados. Poucos vinham se arrastando, ensanguentados. Sentindo a vida vertendo da ferida que lhe ardia, Juninho implorou baixinho à amiga:
_ Sofia! Ei, Sofia! Se finja de morta, avia!
4º campeonato · Selo
EPÍSTOLA À NINGUÉM
Sem melodramas e nem teorias absurdas. Essa despedida sequer me inspira uma verve digna dum último discurso. Apenas escrevo por escrever, deixo esse derradeiro rabisco como sinal de pura desolação. É tédio o que transcrevo; um adeus definitivo que subscrevo.
_ Garçom?
_ Sim, chefia.
_ A saideira!
Com a digital sangrando assino o guardanapo; escarro e selo meu epitáfio.