12º campeonato · Nacional
Cor de filho quando foge à luta
Curioso a bandeira carregar tanto verde e, mesmo assim, ser o amarelo a comandar a nação.
Campeonatos de microcontos · Autores
@tami_shigaeff · 24 microcontos nos campeonatos 12º e 11º.
12º campeonato · Nacional
Cor de filho quando foge à luta
Curioso a bandeira carregar tanto verde e, mesmo assim, ser o amarelo a comandar a nação.
12º campeonato · Morte
Tentou uma, morreu; na segunda também morreu. O pai, ao lado, aflito, olhava pelo retrovisor, o suor escorrendo-lhe pela testa. Na terceira, virou a chave e afogou o motor. A água foi subindo, subindo e subindo. Por fim, submergiram pai e filha.
12º campeonato · Calo
Ia o calo calado, caladinho, chutou pedrinhas pelo caminho, sem praguejar nenhuma vez. Tirou a meia, fez um bico, o silêncio era um estouro eminente, três bolhas coroavam o dedinho.
12º campeonato · Chupeta
Consolo que levava à boca
Inflava perdedores e comovia coitados, berrava todo tipo de infortúnio durante horas. Os dentes projetados para frente e
uma necessidade biológica de sucção; nem a própria mãe conseguia libertá-lo da infantilidade crônica.
12º campeonato · Bandeja
Era meio-dia, faltou energia e a catraca jazia inerte. Queriam almoçar e voltar às aulas, não aceitaram a demora, em uníssono uma horda de alunos berrou: - catraca livre!; invadiram o refeitório. A revolta ficou conhecida como “Os Anarquistas do Bandejão”.
12º campeonato · Aurora
Não aparentava idade, mas naquele dia, após séculos executando a mesma função, Dona Aurora resolveu dormir até mais tarde. Fofocavam no panteão: o absurdo de uma idosa com tantos amantes, conseguir despertar tão cedo.
12º campeonato · Proparoxítona
Prosódia, o general das sílabas tônicas, tem horror ao acento imaginário em filântropo. Mas quando escrevo exercito, vai me mandar alistar ou pagar flexões?
12º campeonato · Ilha
Desencarnou cedo, mas era noite ao cruzar águas revoltas em uma jangada. Assobiou ao barqueiro, que, sem responder apontou uma ilha de fogo. Apalpou os bolsos e sentiu o vazio no amargo da boca. Ninguém confiou ao morto sequer uma pataca furada.
12º campeonato · Nervo
A pílula escorrega pra dentro enquanto ela observa, por detrás dos olhos. Vem pela quina da espinha, agarrada no fio da existência, enervando o corpo. A vítima vibra no colo do sofá uma balada sem equilíbrio
12º campeonato · Entrega
Ouviram passos no banheiro, barulho de utensílios na cozinha, ora o cesto de lixo estava cheio e noutro momento, aparecia vazio. Os homens da casa usufruíam de tudo, sem medo da assombração.
12º campeonato · Cãibra
A professora pediu para apresentar o trabalho em sala. O laudo veio no dia seguinte: não poderia executar a tarefa, o CID era Câimbra Crônica na Língua (CCL).
12º campeonato · Lago
Olho d’água, abrigava uma profundeza magnífica, daquelas que não dá pé. Não me arrisquei a mergulhar. Quando piscou, dei-lhe as costas e fui embora.
12º campeonato · Virgem
Cantaram o ponto. A Virgem das Rochas pediu licença a Xangô, deixou-lhe o cuidado dos meninos e desceu da imagem para noite de carnaval.
12º campeonato · Cesto
No meio do cesto da lavanderia, a roupa ainda com uns fiapos amarelos. Chamo a lembrança pelo buraco do universo que ficou para trás: desalinhado, arrepiado e impossível de esquecer.
11º campeonato · Diálogo
Borbulham na boca, fazendo cócegas na língua, os dentes cerrados impedem a saída. Fogem para mente, desorganizadas, correm de um ouvido ao outro, dizendo coisas tão baixinhas, acolhidas num caderno surrado de um doutor desinteressado.
11º campeonato · Fotografia
As beiradas da imagem iam sumindo, corroídas pelo bicho de asas traiçoeiro: o tempo.
11º campeonato · Bolso
Pelo caminho foi buscando as pedras mais bonitas, examinava cor, tamanho e peso. Umas descartava, outras ia guardando enchendo os bolsos. Contavam essa lenda, debaixo da ponte aquelas pedras descansavam no leito do rio.
11º campeonato · Bolso
A aliança percorreu o trajeto até o fundo do bolso roto, caiu na rua tilintando, arrastando para o bueiro as bodas de papelão.
11º campeonato · Bolso
Tomou o lenço e soluçou como um bicho ferido, até compadecer o amante. Tolo, cedeu às lamúrias, e, despercebido, guardou no bolso a prova seca do cinismo dela.
11º campeonato · Ficção
O papel em branco, eu de caneta na mão, ameacei deitar as palavras pra fora, elas resistiam. Escrevi meia dúzia e desisti, parecia um crime. A polícia invadiu meu apartamento, me rendi sem pestanejar. Apontei para o caderno e confessei: matei a literatura, eis aqui as evidências.
11º campeonato · Ficção
Era boa, mas ia um que revirando as entranhas, subindo calafrios. O pastor disse que era o diabo obrando. Imaginou o micro capeta dentro do estômago. No meio do culto, sentiu-se mal, que criatura terrível sairia dali? Não refreou e vomitou. Aglomeram para ver, um lindo filhote de gatinho.
11º campeonato · Cobre
O ar solto longo e profundo cobre distâncias, cruza oceanos, encontra deuses de muitos braços, deusas com línguas de fora, flores e incensos perfumados. Mas em menos de dez minutos, com um estalar de dedos da instrutora, todos retornam às suas casas satisfeitos, a tempo de jantar um animal sagrado.
11º campeonato · Umbigo
À mulher atribuem o pecado original, uma história saída diretamente do umbigo de Adão.
11º campeonato · Moeda
O trovão rasgou o ar, o homem entrou sem pedir licença. Ela brincava com a boneca no chão, desviou o olhar para a mão estendida de seu algoz, não aceitou o destino, mas ele a carregou mesmo assim. Quando a porta fechou, do lado de fora, ainda pôde ouvir o tilintar no bolso da vovó.
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.