11º campeonato · Diálogo
A Última Conversa
— Fogo ou água? — perguntou o sequestrador.
— Água.
Ele sorriu e incendiou a casa.
Aprendi tarde:
Há perguntas que não querem resposta —
Querem obediência.
11º campeonato · Diálogo
— Fogo ou água? — perguntou o sequestrador.
— Água.
Ele sorriu e incendiou a casa.
Aprendi tarde:
Há perguntas que não querem resposta —
Querem obediência.
11º campeonato · Fotografia
Domingo, ela desperta a tela, marca dez segundos e apoia o aparelho entre livros antes de correr para caber no meio. Ele a puxa pela cintura; o menino se pendura no pescoço dos dois. A cena fixa três sorrisos sob a mesma aliança. Na segunda-feira, a moldura guardava o sorriso; o meio retirava o sobrenome.
11º campeonato · Bolso
No velório, brigaram por relógio, casa, terreno.
A neta ficou com o casaco.
No bolso, a escritura
no nome dela.
11º campeonato · Bolso
Antes de entrar na escola, mandaram esvaziar os bolsos.
Caiu um carrinho sem roda,
um papel de bala,
um bilhete amassado:
“volta cedo, filho”.
Não acharam nada perigoso.
Só o corpo certo
no lugar errado.
11º campeonato · Bolso
A foto do pai morava no bolso do paletó.
Ele assinava cortes em massa.
Antes de cada assinatura,
alisava o retrato.
Nunca o tirou do bolso.
Tirou os outros.
11º campeonato · Banda
O roteador piscava jurando alcance total.
Ele navegou o mundo pela tela.
A rede caiu. O silêncio seguiu online.
Descobriu: o mundo carregava. Ele não.
11º campeonato · Banda
Começou em acorde.
Soou como acordo.
Um marcou o compasso.
Outros alinharam o passo.
Sem partitura, partiram.
Cumpriam.
Chamavam de banda.
Descobriram tarde: era bando.
11º campeonato · Ficção
No tapete, o menino treina e faz de conta que o inimigo se rende num abraço. Cinquenta anos depois, ele encara a foto e agora — faz e conta: o abraço no front serviu apenas para monitorar o último batimento do homem que amava e acabara de esfaquear.
11º campeonato · Ficção
No palco, o ator aperta o pescoço da esposa. O público aplaude o realismo da face roxa e das unhas cravadas em seus pulsos. As cortinas fecham, ele não solta. O diretor grita "corte", mas o marido sorri: para a crítica ser perfeita, a atriz não pode levantar para o agradecimento.
11º campeonato · Ficção
O editor louvou o realismo. Leitores devoram o mistério do sumiço da família do protagonista. Do jardim, o autor observa a grama alta, adubada pelo silêncio de quem ele apagou do mundo e chamou de rascunho.
11º campeonato · Cobre
Porteiro, rondava com uma moeda de cobre. — Pra não dar choque. Tocava as maçanetas. Algumas cediam.
Virou síndico. Presidia a assembleia quando o 302 sustentou o olhar. Não apontou o dedo. Caminhou e encostou no seu ombro.
O cobre, desta vez, não isolou a descarga.
11º campeonato · Cobre
Prometeu que “cobre qualquer oferta”.
Candidato sorridente, palanque armado.
Ganhou.
Cobriu tudo.
Processos.
Amigos.
Desvios.
O país ficou exposto.
11º campeonato · Melancia
No asfalto quente, o rastro de polpa e sementes morre no meio-fio. Sem marcas de freio, o caminhão seguiu. O motorista só parou quando, no retrovisor, viu que a casca verde usava chinelos de borracha e ainda segurava, intacta, a mão de uma criança.
11º campeonato · Melancia
O franco-atirador vigiava a estrada sob o sol de agosto. Pela mira, viu o garoto carregar o globo verde como um troféu. O dedo hesitou no gatilho. Quando o projétil finalmente cortou o ar, buscou o peito. A melancia explodiu, e o soldado chorou enquanto o menino lambia o chão.
11º campeonato · Melancia
A semente brotou sob a língua, selando os lábios dela. No ultrassom, algo arredondado empurrava as costelas. No parto, o bisturi não revelou sangue nem choro. O médico tateou a incisão e retirou, madura e gelada, a polpa que pulsava no lugar do coração.
11º campeonato · Toa
O GPS recalcula a rota pela décima vez. Ele mantém o pé no acelerador enquanto o ponteiro do combustível beija o zero. Pela janela, os postos de gasolina passam como fantasmas. Ele não busca um destino; ele apenas espera que o motor morra antes que o pensamento o alcance.
11º campeonato · Toa
A água subiu até o queixo. Ele não desatou os nós das botas; o couro encharcado ajuda a ancorar o corpo ao fundo. No horizonte, o barco é um traço indiferente que some. Ele fecha os olhos e abre a boca, deixando que o oceano, enfim, decida por ele.
11º campeonato · Umbigo
Catava fiapos do umbigo enquanto andava. Olhos baixos, centro fixo.
Tropeçou.
Havia alguém no chão. Reclamou do susto, do atraso. Só depois viu o sangue no sapato.
Não era dele.
11º campeonato · Umbigo
Ela cozinhava.
Eu consumo.
Ela fazia.
Eu posto.
Ela tirava óleo do coco.
Eu tiro o foco.
Ela via o mundo.
Eu vejo o umbigo.
11º campeonato · Moeda
No abrigo, cada recém-nascido recebe uma moeda. Encostam no peito: se gruda, fica. Se cai, não entra no livro.
A dela caiu.
A enfermeira tentou outra, mais densa.
Caiu também.
A mãe guardou as duas no sutiã.
Anos depois, a cidade inteira começou a perder o próprio peso.
11º campeonato · Moeda
— Falta uma. Não aceito menos.
O barqueiro aguardou; nada saiu dos bolsos. Conferiu o trocado e desatracou. No meio da corrente, ele empurrou; o peso morto cruzou a borda. O volume cedeu e a água engoliu.
Do outro lado, silêncio por troco.
Na ficha: Quitado.
5º campeonato · Palhaço
"No picadeiro, tropeçou em sua própria sombra, causando risadas até nos espectadores invisíveis. 'É mais difícil lidar com sombras do que com truques!', brincou, levantando-se com uma reverência cômica".
5º campeonato · Palhaço
No circo, o palhaço segurava um grande livro aberto. "Estou tentando entender a política", disse ele com um sorriso. "Mas parece que é apenas um grande número de palhaçadas!"
5º campeonato · Palhaço
No canto solitário do picadeiro, o palhaço se preparava para mais uma apresentação. Mas ao bater os sapatos, um portal se abriu, levando-o a um mundo mágico. Ao voltar, percebeu: "Meu corpo jaz no chão. Agora, sou parte do espetáculo celestial."
5º campeonato · Marca
Encontrei meu gato com uma "marca" inusitada: um bigode de iogurte. Suspeito que ele esteja tentando se disfarçar de gato gourmet para impressionar a vizinhança.
5º campeonato · Marca
Comprei um mapa do tesouro em uma venda de garagem. Segui as instruções até encontrar uma marca na árvore que dizia: "X marca o local". Comecei a cavar freneticamente, apenas para descobrir que "X" era o nome de um cachorro que adorava enterrar ossos ali.
5º campeonato · Marca
Ganhei um par de meias "anti-azar". Mas toda vez que as visto, algo desastroso acontece: tropeço, derrubo coisas, até o cachorro me olha desconfiado. Conclusão: minha marca pessoal é o azar, e as meias só intensificam isso.
5º campeonato · Baralho
O baralho velho repousava sobre a mesa, suas cartas desgastadas, testemunhas de inúmeras partidas. Entre elas, a Dama de Copas guardava um segredo: o amor proibido entre um rei e um valete, destinados a eternamente se encontrarem nas mãos dos jogadores.
Wilian Cândido
5º campeonato · Baralho
No circo, o palhaço solitário encantava com truques de baralho. Cada carta revelava desejos absurdos. Quando previu o futuro, o Rei de Copas virou um retrato de sua própria cara triste. O público explodiu em risadas, sem suspeitar que o palhaço só queria uma noite de risos genuínos.
Wilian Cândido
5º campeonato · Baralho
No trem lotado, um passageiro solitário embaralhava cartas. Cada carta revelava desejos secretos. O Dez de Ouros virou um mapa do tesouro. Os olhos curiosos se viraram, sem saber que ele só queria encontrar seu caminho na vida.
Wilian Cândido
5º campeonato · Cebola
Uma cebola entediada na geladeira parte em uma jornada. Com mochila e sorriso torto, embarca numa aventura. Entre mercados, faz amizade com uma cenoura tagarela e flerta com um alho charmoso. Descobriu que até para vegetais, o mundo é cheio de sabores e aromas.
5º campeonato · Cebola
A CEBOLA ATRAPALHADA.
Na cozinha agitada, a cebola tenta impressionar os outros vegetais com suas habilidades de malabarismo. Mas quando tenta fazer o truque do equilíbrio na ponta do nariz de uma cenoura, acaba tropeçando e caindo de cabeça na panela de sopa. Pelo menos, sua entrada foi um sucesso!
5º campeonato · Cebola
A cebola, cansada de ser cortada, rola pela cozinha em busca de liberdade. No entanto, seu plano escorregadio é frustrado quando é parada. O destino foi cruel — ela acabou na salada de atum.
5º campeonato · Nota
A nota colada na geladeira dizia: "Compre mais sorvete." Ele bufou. "Coma menos sorvete," murmurou para si mesmo, enquanto pegava uma colher e abria o pote.
5º campeonato · Nota
Ela deixou uma nota na mesa: "Você é meu raio de sol em dias nublados." Ele sorriu, sabendo que mesmo nas tempestades da vida, eles sempre encontrariam um arco-íris juntos.
5º campeonato · Nota
Com um sorriso ansioso, ele abriu o envelope. A nota dentro dizia: "Não esqueça de alimentar o peixe." Ele olhou para o aquário vazio. Ah, sim, o peixe imaginário, seu fiel amigo.
5º campeonato · Desejo
Na praia deserta, ela encontrou uma garrafa. Dentro, um bilhete: "Seu desejo será realizado". Ela sorriu, lançou-a ao mar. O vento sussurrou: "Já foi".
5º campeonato · Desejo
O relógio marcava meia-noite quando ele encontrou a lâmpada mágica. Um desejo apenas. Ele pensou, ponderou, e com um sorriso pediu: "Que ela seja feliz, mesmo sem mim."
5º campeonato · Desejo
Na ponta dos dedos, um desejo ecoava. Ela fechou os olhos e soprou as velas. Um suspiro. O telefone tocou. Ele atendeu. Finalmente, era ela.
5º campeonato · Ninguém
Nas vielas silenciosas da cidade, uma sombra se move. Ninguém vê, ninguém sabe. Mas todos sentem sua presença, como um sussurro gelado na espinha.
5º campeonato · Vazio
Na estação vazia, uma mala abandonada. Ao lado, um bilhete: "Adeus, mundo cruel." O trem partiu, levando consigo a história de um vazio não contado.
5º campeonato · Vazio
No tribunal, o advogado defendeu: “Meu cliente não cometeu adultério, apenas encontrou um vazio no relacionamento e quis preenchê-lo.” O juiz, surpreso, respondeu: “Parece que ele encontrou um vazio no argumento também!”
5º campeonato · Vazio
Na sala abandonada, a luz pálida da lua filtrava pelas cortinas sujas. Entre os móveis empoeirados, um quadro torto pendia na parede, retratando um sorriso vazio. Um calafrio percorreu a espinha de quem o observava.
5º campeonato · Estrela
Num espetáculo, ela fez uma pirueta tão perfeita que até as estrelas pediram autógrafo.
5º campeonato · Estrela
Uma estrela desceu à Terra, confundindo um poste com um parente perdido. Os pedestres, atônitos, esfregavam os olhos, sem acreditar na cena cósmica diante deles.
5º campeonato · Estrela
Na órbita da sala de aula, o professor irradiava sabedoria estelar, lançando feitiços educacionais mais poderosos do que qualquer magia galáctica.
5º campeonato · Pétala
Pétala ficou envergonhada quando sua amiga a viu engasgada. "Você está bem?" Pétala balançou a cabeça, tossindo. "S-sim, só me desentalei com o susto."
5º campeonato · Pétala
Pétala, famosa por transformar objetos em ouro, foi procurada por um aluno desesperado para melhorar suas notas. Com um sorriso, ela disse: "Se eu pudesse fazer isso, meu caro, seria presidente da academia!
5º campeonato · Pétala
Num jardim distante, Pétala sonhava em ser única. Mas toda vez que chamavam 'Pétala', cinco flores respondiam. Decidiu mudar seu nome para 'Sol'. Agora, ao chamarem 'Sol', quatro plantas reclamam do calor.
5º campeonato · Corpo
No banco do parque, um velho observa as árvores dançando ao vento. Seus dedos enrugados acariciam a bengala, testemunha silenciosa de tantos passos dados. O corpo envelhece, mas a alma dança livre, eterna.
5º campeonato · Corpo
Gotas de chuva escorrem pela janela embaçada. O vidro se torna espelho para as memórias gravadas no corpo: cicatrizes como linhas de um mapa, cada uma contando uma história de sobrevivência.
5º campeonato · Corpo
Na rua deserta, um lenço voa. A brisa o empurra, dançando no ar, como se buscasse o pescoço que um dia o aqueceu. Um gesto de adeus? Ou uma promessa de retorno?
Textos publicados pelo autor nos comentários do @3serpentes durante os campeonatos de microcontos.
Escolha um campeonato e uma palavra, e leia um por um, até o último.